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Cultura

Crônica

Setembro

por Eduarda Freitas — publicado 13/09/2011 11h41, última modificação 14/09/2011 11h42
O acordar desajeitado sem vontade de leite com pão e manteiga, na ansiedade desmedida de chegar o mais rápido possível ao quintal – que era logo ao lado de casa – onde o meu avô e mais dois ou três homens cortavam as uvas

É Setembro. Mês de eterno recomeços. Mês de ver o sol estendido na paisagem em inícios de amarelos alaranjados. Setembro traz-me a memória das vindimas. A tesoura que era grande para os meus dedos de menina.

O acordar desajeitado sem vontade de leite com pão e manteiga, na ansiedade desmedida de chegar o mais rápido possível ao quintal – que era logo ao lado de casa – onde o meu avô e mais dois ou três homens cortavam as uvas. E era eu, depois, repleta de mim, quem cortava na severidade da videira o mais doce cacho de uvas. E quando os cachos se acumulavam no lagar, os homens dos pés fingiam-se de máquinas e transformavam uvas em vinho.

Para mim, era o melhor de todos os truques. A casa da minha avó vestia-se de respingos de mosto, vestia-se dos meus primos e dos meus tios, do meu avó e de mim, pequenina, a experimentar o rasgo das uvas com os pés. Todos os anos desejava cada um daqueles dias com a intensidade da eternidade. Hoje também é Setembro.

No quintal a figueira dá todos os filhos que natureza lhe concede às mãos de quem a quer. Sento-me de olhos na terra onde faltam as videiras e vejo o meu avô a sorrir-me. A oferecer-me uma tesoura ainda gigante para as minhas mãos sempre pequenas. E aperto os dedos nas uvas imaginárias e desejo Setembro para sempre. Como para sempre é o meu avô.

Como para sempre serão os respingos de mosto espalhados pela casa da minha avó, que era também a casa do meu avô, e que era também minha, porque era pequenina. A casa e eu.