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Cultura

Especial Cannes

Sessões de cinema no Mediterrâneo

por Orlando Margarido — publicado 29/05/2011 09h06, última modificação 03/06/2011 14h54
Orlando Margarido traz os destaques da 64ª edição do festival francês, encerrado no domingo 22. Fotos: Divulgação
Sessões de cinema no Mediterrâneo

Orlando Margarido traz os destaques da 64ª edição do festival francês, encerrado no domingo 22. Fotos: Divulgação

Excêntrica missão

THIS MUST BE THE PLACE

Paolo Sorrentino

Quando na primeira meia hora parece contentar-se em ser apenas um retrato da excentricidade de um ídolo decaído do rock, crivado de referências do mesmo universo, This Must Be The Place põe-se na estrada e no risco. Cheyenne, o astro em questão, recebe a notícia na Irlanda, onde vive, da morte do pai em Nova York. Segue para lá de navio, pois não gosta de voar, e impõe-se a incumbência de continuar a procura pelo oficial alemão que perseguiu as raízes judias da família em Auschwitz. Atravessa os EUA com as pistas fornecidas e a ajuda de um caçador de nazistas. Com aparência de gótico, cabelos compridos e desgrenhados, maquiagem no rosto e roupas pretas, ele nos faz crer que é a mais normal das criaturas naquele cenário.

O filme de Paolo Sorrentino, diretor italiano do ótimo Il Divo em sua primeira produção de língua inglesa ainda sem título e data de estreia no Brasil, foi uma pérola na safra média do Festival de Cannes encerrado no último domingo. Banca sua cota de problemas, como algumas quedas na narrativa, ao superar a recorrente adoção do tema do fascismo no cinema com o recurso de enxergá-lo através da relação entre pai e filho que por décadas não se falaram. A vida isolada de Cheyenne com sua mulher numa mansão em Dublin, as caminhadas titubeantes com um inseparável carrinho de feira pelas ruas, o comportamento infantilizado propagado pela voz fina e arrastada não forjam um enfrentamento óbvio do protagonista com seu passado, como a justificar o presente. Nem mesmo ele será representado mais maduro por ter convocado a missão paterna para si.

Cheyenne é um modelo acabado daquele herói roqueiro que se jogou no limite, afundado em drogas e álcool, e que apenas segue intuindo ter sua hora vencida. Não surgem por acaso alusões a uma geração que soube ou não se manter na cena, indiretas como Siouxie and The Banshees e direta de Robert Smith e seu The Cure, à presença de David Byrne, cuja música é o título. Com a interpretação singular de Sean Penn, preterido injustamente na premiação pelo astro francês Jean Dujardin, o painel que poderia sugerir apenas um capricho de mais um estrangeiro na América faz justamente dessa estranheza sua força.

Sim, a vida imita a arte

BELMONDO, ITINERÁRIO...

Vincent Perrot

No final de O Magnífico, comédia popular de espionagem de Philippe de Broca exibido numa tela à beira-mar em Cannes no último dia 17, Jean-Paul Belmondo diz à personagem de Jacqueline Bisset saber que permanecerá para

sempre um conquistador de belas mulheres como ela. “Portanto não finja me recusar”, carimba. A plateia vibra e ri do filme de 1973. Quatro décadas depois, aos 78 anos, Belmondo subiria naquele mesmo dia o tapete vermelho do festival para receber uma justa homenagem como figura legendária tanto da Nouvelle Vague como do cinema comercial francês. Inseguro no andar e escorado por uma bengala, pois sofrera um infarto, era ajudado por sua mulher, Barbara Gandolfi, uma morena voluptuosa e  ex-modelo da Playboy, de 35  anos. A promessa do cinema se cumpria ali mesmo.

Belmondo não sabia, mas  estava reservada a ele uma Palma de Ouro pela carreira, recebida das mãos do presidente Gilles Jacob. Sua fala deu o recado sintético: “Vai direto ao coração”. Amigos como  Claudia Cardinale e Claude Lelouch fizeram distinção a esse Bogart da França que serviu a Jean-Luc Godard como o galã rebelde em  Acossado (1960) e O Demônio das Onze Horas (1965), e também ao tipo canastrão em ações  hollywoodianas como O Profissional (1981), de George Lautner.

São mais de 80 participações entre cinema e tevê, e pouco se esclarece da figura arredia a desvendar sua vida pessoal no documentário Belmondo, Itinerário..., exibido após a homenagem.  Mas, em revisão, torna-se surpreendente a trajetória diversificada de um ator que soube se moldar às demandas sem preconceito e virou um dos intérpretes mais queridos da França. – O.M.

Um bilhete aos jovens

CORMAN’S WORLD: EXPLOITS OF A HOLLYWOOD REBEL

Alex Stapleton

Do alto de sua experiência, o grande rebelde de Hollywood Roger Corman aconselhou a plateia de futuros realizadores: “Preparem-se e preparem-se”. O encontro, no Festival de Cannes encerrado no domingo 22, versava sobre a carreira de diretor de 50 filmes e produtor de mais de 300. “Nunca perguntem no set onde colocar a câmera. São vocês que devem estar preparados, até mesmo para mudanças súbitas”, disse.

Aos 85 anos, um afável  Corman comentou que o inesperado se deu em seus filmes. Mas ele ria na época como continua rindo agora, quando conta sobre as filmagens de A Pequena Loja de Horrores (1960) com Jack Nicholson, ator que lançou. Numa cena no dentista, a cadeira do profissional desmantelou-se e, ao saber que o conserto levaria duas horas, mudou toda a tomada e chegou ao fim com ela avariada. Na maior parte das vezes, no entanto, as coisas andavam tão bem que era possível até reciclar. Quando terminou The Raven (O Corvo), havia sobrado dois dias de set. Chamou Nicholson e Boris Karloff e fez a toque de caixa Sombras de Terror, ambos de 1963. “O problema neste caso é que nunca entenderam a trama.”

Nicholson vai às lágrimas quando relembra a genialidade criativa do diretor, apesar do baixo orçamento, no documentário Corman’s World: Exploits of a Hollywood Rebel, de Alex Stapleton, exibido em Cannes. Falam também Robert De Niro e Martin Scorsese, além de colaboradores ligados à New World, produtora de Corman. Foi como distribuidor que fez chegar ao público americano Fellini, Bergman e Kurosawa. Algum fracasso na carreira? “Só um projeto de consciência sobre integração social.” Filme sério, que lhe rendeu ameaças de morte e prisão. – O.M.