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Cultura

4ª Festa Literária Internacional de Cachoeira

'Separar cérebro, amor e desejo é muito artificial', diz Gonçalo M. Tavares

por Marsílea Gombata publicado 01/11/2014 08h10, última modificação 07/11/2014 11h19
Um dos principais nomes da Flica, festival que ocorre no Recôncavo, premiado autor de 'Jerusalém' fala a CartaCapital sobre poesia, conhecimento e seu mais recente livro
Egi Santana / Divulgação Flica
Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares já venceu os prêmios Portugal Telecom e José Saramago com 'Jerusalém'

Como falar de amor e desejo a partir de formas geométricas como quadrados e triângulos? Autor do celebrado Jerusalém, vencedor dos prêmios Portugal Telecom e José Saramago, e do recente e intrigante Atlas do Corpo e da Imaginação, o português Gonçalo M. Tavares defende que esses mundos aparentemente distantes são, na verdade, um só. “Essa mistura entre o desejo e o quadrado me atraem. Gosto de uma racionalidade delirante, de um delírio exato”, conta em entrevista a CartaCapital.

Uma das principais atrações da quarta edição da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), cidade no Recôncavo Baiano, o escritor explica, por exemplo, que nos apaixonamos através do cérebro. “Temos um minicoração no cérebro que nos faz apaixonar. E a separação entre cérebro, amor e desejo é muito artificial. As coisas estão naturalmente misturadas e tento não separá-las. A geometria está junto do processo amoroso”, defende ao lembrar que antigamente a poesia era utilizada para ensinar ciência. “Hoje assumimos a poesia como algo emotivo ou biográfico, quando inicialmente os pré-socráticos utilizam o som e a qualidade da escrita para ajudar no aprendizado. Então, poesia e produção de conhecimento eram a mesma coisa. Depois começamos a separar tudo”.

Para o autor nascido em 1970 em Luanda, capital da Angola, os filósofos que melhor conseguem transmitir ciência o fazem através de metáforas. “Para mim, os melhores filósofos são os que utilizam a poesia, as imagens”, afirma sobre quando o austríaco Ludwig Wittgenstein questiona se uma maçã vermelha no escuro continua a ser vermelha. “É pensar através da imagem, é metáfora basicamente. Poderia ser uma frase da Clarice Lispector”, afirma, citando a autora de um livro que se chama, justamente, A Maçã no Escuro.

Como contraponto do que defende sobre a não separação entre os dois universos, Gonçalo cita o filósofo prussiano Immanuel Kant, que utiliza poucos métodos literários, pouca poesia. “Apesar de pensar muito bem, não me entusiasma. O pensamento através da linguagem artística atingiu um outro patamar. A ciência consegue passar sua mensagem através da imagem, poesia, muito mais forte que uma equação”.

Nas cerca de 500 páginas de Atlas do Corpo e da Imaginação (da portuguesa Editorial Caminho, ainda sem data de lançamento no Brasil), Gonçalo M. Tavares utiliza o trabalho fotográfico do grupo português Os Espacialistas ancorado por legendas e textos de sua autoria. Foram cerca de três meses para definir onde ficariam textos e legendas, para que o leitor pudesse ler o texto e saltar para as imagens de modo a vivenciar um choque pré-determinado.

Em um livro descrito pelo autor como “denso e livre”, em que a imaginação guiaria o leitor, por que então utilizar a palavra “atlas”, que dá uma ideia de catálogo, algo limitado? “Juntar atlas e juntar imaginação é um pouco isso: juntar uma palavra que aparentemente organiza e uma palavra que desorganiza. Gosto dessas misturas”, diz. “Mas atlas também remete a imagem, como um atlas geográfico ou de animais. Tem a ver com fazer a cartografia visual de um assunto. E ali as imagens quase exigiam que a palavra ‘atlas’ estivesse presente. Mas trata-se de um atlas completamente caótico, não é nada organizado”.

O questionamento dos limites encarnados pela escrita e pela arte de modo geral é um exercício filosófico quase obrigatório para o autor. Assim, apesar de muitas vezes termos um ponto de vista e o encararmos como a nossa “opinião”, é importante lembrarmos que a ideia de ponto de vista diz respeito à “linha que marca o ponto de onde estou até o objeto que estou vendo”. “O ponto de vista é sempre individual, ninguém pode ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mas pensar é mudar o ponto de vista que temos sobre as coisas, não nos fixar”, afirma. Para ele, quem sempre vê a mesma distância e o mesmo ângulo é fundamentalista, o que intelectual e eticamente tem um potencial de violência muito grande. “Se eu me fixo aqui, para mim esse objeto é esse ponto de vista, não aceito nenhum outro. Quando vemos fundamentalistas políticos e religiosos é um pouco isso: alguém que se fixou e não aceita que uma pessoa tenha outro ponto de vista. Por isso, fazemos bem quando mudamos as pessoas de lugar”.

Além de falar sobre limites da arte e inspiração para o seu trabalho, na mesa em que esteve na manhã desta sexta-feira 31 na Flica, Gonçalo abordou também de que maneira a recessão nos países europeus impacta a obra de um artista. “Eu trabalho isolado, mas depois saio à rua e vejo que as pessoas hoje reagem mais bruscas. Os portugueses já não são sorridentes, não é um povo naturalmente alegre. E nesse momento de crise, essa característica mais dura de uma melancolia mais amarga, apareceu muito”, conta.

Elogiado por grandes escritores como António Lobo Antunes e José Saramago – que chegou a apostar nele como o futuro ganhador do Nobel de Literatura – Gonçalo Tavares se diz fã de brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e, especialmente, Clarice Lispector. Dela, costumava guardar consigo uma recordação. “Havia uma época em que eu andava no bolso com uma frase do livro Perto do Coração Selvagem como meu amuleto de sorte: ‘A cada luta ou descanso, me levantarei forte e bela como um cavalo novo’”, conta. “É muita energia em apenas uma frase.”

*A repórter viajou a convite da organização da Flica.