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Senso de detalhe

por Vinicius Jatobá — publicado 26/03/2011 09h21, última modificação 26/03/2011 14h30
Mais chiste que sistema, mais descrição prática que empulhação teórica, James Wood lê o cânone realista de forma tão consistente em "Como Funciona a Ficção" que o leitor desavisado pode confundir seu ensaio irregular com um tratado. Por Vinicius Jatobá

COMO FUNCIONA A FICÇÃO

James Wood

Cosacnaify, 232 págs., R$ 49

Mais chiste que sistema, mais descrição prática que empulhação teórica, James Wood lê o cânone realista de forma tão consistente em Como Funciona a Ficção que o leitor desavisado pode confundir seu ensaio irregular com um tratado. Após estabelecer um arco demasiado ambicioso – com críticas a Barthes –, as limitações do crítico o colocam em um trajeto que torna seu livro incontornável.

Ele não responde sobre a relação entre literatura e realidade, nem sequer ilumina como funciona a ficção. O que oferece, contudo, e pela forma fragmentária de sua escrita (dezenas de achados que são um antídoto à leitura crítica atual), Wood se resolve dentro do próprio texto, pinçando detalhes textuais, descrevendo, maravilhado, pequenas soluções de Flaubert, James ou Bellow para tornar a realidade sobre a qual se debruçaram palpável aos leitores.

Wood também se revela um crítico cuja escolha, o cânone realista, torna-o cego para certos autores mais contemporâneos. Ele reza pelo senso de detalhe em um mundo cuja prosa se tornou rarefeita, por personagens fortes num contexto de personalidades enfraquecidas, pelo gosto da região quando as histórias atuais nem sequer trazem descrições dos lugares onde ocorrem. Também advoga por narradores decididos e autoritários que manipulem os sentimentos dos personagens e dos leitores. Some-se a isso seu fascínio pela prosa simples, em um contexto que inflaciona de dificuldade qualquer coisa e valoriza e superestima essa inflação, e temos um crítico tão anacrônico que chega ao caricato. Seu livro, contudo, como uma carta jogada ao mar que retorna à costa, é uma declaração de amor a uma forma de ler a literatura cujo tempo já passou.