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Entrevista

Senhores do Som

por Araújo Lopes — publicado 13/11/2011 15h51, última modificação 13/11/2011 16h10
O pianista Amilton Godoy fala sobre o lançamento de uma caixa com os primeiros álbuns do Zimbo Trio e de seu novo disco
zimbo trio

Patrimônio instrumental brasileiro, o Zimbo Trio lança trabalho autoral e tem os seis primeiros discos reeditados. Foto:Fernando Martins Ferreira

Quem escuta o Zimbo Trio não consegue parar de escutar. Quem escuta o Zimbo Trio viaja, tem a impressão que vai para outra dimensão. A profusão de notas, acordes, perfeitamente arranjados e postos lado a lado, se espalhando pelo espaço. É uma experiência musical inovadora, ainda hoje. É assim desde 1964, quando música brasileira, meio tonta, ainda se recuperava da revolução harmônica da Bossa Nova e os músicos estavam entusiasmados com as infinitas possibilidades da liberdade criadora. Em 1964 o então desconhecido Zimbo Trio subiu aos palcos pela primeira vez, na Boate Oásis, no dia 17 de março, para acompanhar a jovem Norma Bengell. O show tinha a produção de um dos maiores nomes da música brasileira, o produtor Aloysio de Oliveira, lenda viva desde que cantava, como integrante do Bando da Lua, com Carmem Miranda em suas turnês americanas. Entre as canções que o Zimbo apresentou na Oásis estava Consolação, de Banded e Vinicius. Foi um banho de música. Daí pra frente, foi só sucesso. O Zimbo acompanhava Elis Regina e Jair Rodrigues no Fino da Bossa, a partir de 1965. O Zimbo acompanhava Elizeth e o Época de Ouro, em 1968. O Zimbo lançava Gil, Chico, gravava Edu e Vinícius, Carlinhos Lyra. O que o Zimbo gravava era antológico.É provavelmente o conjunto musical mais longevo da história, e mantém sua integridade até hoje. Qualidade em primeiro lugar. Os novos passos nesta jornada são o lançamento de uma caixa com os primeiros álbuns gravados pelo grupo e um novo disco, desta vez com músicas do pianista Amilton Godoy, um dos fundadores do grupo, que conta um pouco sobre estes novos trabalhos para a CartaCapital. Há mais de 40 anos, o Zimbo Trio é assim: novo.

Carta Capital: Como foi a experiência de gravar o primeiro disco só com músicas suas, já que o Zimbo sempre foi reconhecido pela qualidade de interpretação das músicas de outros compositores?

Amilton Godoy: Nossa proposta, desde que formamos o conjunto, nunca foi cantar nossas músicas, mas interpretar muito bem canções de outros. Mas nós nunca excluímos a possibilidade de gravar músicas feitas pelos nossos integrantes, novos talentos e compositores em início de carreira, isto desde o início, em 64. Tanto que, no nosso primeiro disco, já havia uma música, O Norte, do Luís Chaves. Sempre abrimos este espaço. Gravávamos o Sérgio Augusto, composições do Adilson Godoy, meu irmão. Então, gravar músicas nossas e de gente que não era conhecida sempre fez parte da nossa vida. O negócio é que os desconhecidos naquela época eram o Chico, o Edu Lobo e o Gil.

CC: O senhor sempre compôs?

AG: Eu sempre compus, ia compondo e colocando na gaveta. O Rubinho sempre soube que eu tinha muita coisa guardada, que eu ia fazendo. Mas nunca usei em um disco primeiro porque sempre tivemos farto material do compositor nacional. Sempre fomos muito gratos aos compositores brasileiros pela grande quantidade de material que tivemos para gravar nestes mais de 50 discos. Eles são um orgulho para todos nós. Então, as minhas sempre ficaram guardadas. Agora, decidimos que tinha chegado a hora de gravar. Mas ainda tenho muita coisa guardada, pelo menos o triplo do que gravamos.

 CC: O Zimbo sempre foi muito procurado pelos artistas, não dava tempo para tocar as suas músicas...

AG: O Zimbo sempre foi muito prestigiado pelos artistas brasileiros. Eles reconheciam nosso compromisso com a qualidade, com o acompanhamento bem feito, com o extremo cuidado na execução de uma canção. Era muito comum, por exemplo, mesmo com os grandes da música, queria saber como era a nossa versão para as músicas, até para os standards. Era aquela coisa: como será que o Zimbo tocou? E assim era com o Tom, o Edu Lobo, os irmãos Valle, o pessoal da Bossa Nova, que já tinha começado, mas todos nos respeitavam muito. Muitas vezes, até antes de as músicas serem gravadas, nós recebíamos o material e gravávamos. Eles chegavam diretamente. Uma vez, por exemplo, o Baden chegou perto de mim e me falou dos sambas que ele e o Vinícius estavam preparando para gravar. Me disse que o Vinícius tinha recebido licença de um centro de candomblé para gravar. Ele tinha feito as melodias e o Vinícius estava preparando as letras. Ele tocou no violão, eu gostei na hora. Registrei num gravadorzinho e decidimos gravar também. Eram os afro-sambas.

CC: Uma das marcas do grupo sempre foi o repertório de primeira. Como vocês conseguiam tomar conhecimento das novas composições?

AG: Nós tínhamos acesso a estes novos compositores e aos músicos consagrados com frequência, e muitas vezes em primeiro lugar. Por vários motivos. Primeiro, porque o Fino da Bossa era um programa obrigatório no ambiente cultural daquela época.  Esse encontro acontecia de várias formas. Antes de o programa começar, tínhamos uma Primeira Audição, apresentada apenas para o público do teatro, sem ser transmitida pela televisão. Tocavam o Toquinho, Taiguara, o Chico Buarque, o Milton, eram estreantes, estavam buscando espaço, e para eles era importante tocar com o Zimbo Trio no Fino da Bossa. Isso porque, durante o programa, nos trechos que iam ao ar, só se apresentavam os gigantes da Bossa: Tom Jobim, Vinícius de Moraes, os irmãos Paulo e Marcos Valle, Os Cariocas, Carlinhos Lyra e mais Dorival Caymmi. Então, tocar com o Zimbo, mesmo antes de o programa ir ao ar, era uma enorme conquista. Conhecemos assim muitas músicas, em primeira audição, por causa do programa. Canção do Sal eu ouvi a primeira vez no Fino da Bossa. Conhecemos o Chico também numa Primeira Audição.  Eu conheci o Milton quando ele ainda não tinha cartaz como compositor, era cantor de boates de São Paulo.  O Gilberto Gil, eu lembro dele andando pelos corredores das rádios, com uma pastinha debaixo do braço, esperando por uma chance. Uma vez, eu era do júri de um festival, acho que era da Excelsior, e caiu na minha mão duas músicas do Gil: Frevo Rasgado e Domingo no Parque. Eu tinha que escolher uma para participar. Mas as duas eram tão boas! Acabei escolhendo Domingo no Parque, mas falei para os companheiros do Zimbo: poxa, isso aqui é muito bom. E o Zimbo gravou as duas, porque eram de ótima qualidade.

CC: A década de 60 foi boa para a música brasileira?

AG: O ambiente cultural criado pelos festivais de música era muito rico, foi um momento muito bom para a música brasileira. A Bossa Nova já tinha começado e até passado um pouco, pois nós começamos em 64 e a Bossa Nova começou em 58. Nos anos 60 os artistas se libertaram de uma série de formatos e rotinas de criação criadas por movimentos consagrados. O clima era de criação, de renovação, com enorme qualidade. Os festivais universitários, que também começaram nesta época, eram uma enorme oportunidade para estes jovens que queriam se lançar no meio artístico. Uma vez eu estava num festival e o Walter Silva, o pica-pau, me chamou para ouvir uma música. Era Pedro Pedreiro, de um jovem chamado Chico Buarque. Ele tinha ficado encantado com a letra, e a melodia também era muito boa. Mas, como para participar era obrigado ter partitura, e esta era minha tarefa, escrevi a música e adorei também. Isso tudo acontecia nestes festivais, nestas apresentações e nos shows universitários realizados na época, a música era muito rica. No Teatro Paramount cabiam 2.500 pessoas, e todas elas adoram ver as apresentações de novos talentos e dos nomes consagrados. O movimento estudantil, que era forte na época, fazia muitos shows ali, sempre com imenso sucesso. O Fino da Bossa foi realizado no Paramount por iniciativa do Centro Acadêmico 11 de Agosto.

CC: Como é o seu trabalho de criação?

AG: Me sinto jovem, como se fosse um compositor novo. Colocamos onze músicas neste disco mas tenho pelo menos o triplo para novos trabalhos, material para outros discos. Estou sempre tendo ideias musicais diferentes. Gosto de usar o instrumento por inteiro, de explorar o som, de perceber a música. E, por incrível que pareça, quando compomos música para receber uma letra, por exemplo, temos que obedecer a certos critérios de métrica do som, porque senão nenhum cantor conseguirá acompanhar. O Rubinho costumava me dizer, brincando: era preciso fazer mais notas!

CC: O conjunto tem um trabalho muito interessante com a formação de músicos jovens. Por que você vocês decidiram se dedicar à edução musical?

AG: Nosso trabalho com o Clam foi formidável justamente neste sentido, de revolucionar o ensino de música no Brasil. Foi um oásis no meio do deserto, pioneiro no ensino de música a que se propôs. Foi a primeira escola livre de música a funcionar no Brasil, totalmente diferente do que existia até então. Até o Clam começar a funcionar, quem queria estudar música no Brasil tinha que procurar o conservatório. Era a única alternativa, fazer a faculdade da música. Mas o conservatório educa o aluno para se tornar um executor de música, não para sentir a música. Você aprende a ler a partitura e a reproduzir, na melhor maneira possível, aquilo que outra pessoa escreveu. Aí começam aqueles concursos, para saber quem faz a melhor nota em determinada composição de 400 anos. Nada contra o ensino clássico, mas o Clam se propunha a criar outro tipo de músico. No Clam nosso estímulo é pela criação, pelo convívio entre músicos e instrumentos. Você estuda piano, mas você vai interagir com violões, violinos, baterias. É importante ter esta afinidade. Vai ler música e vai criar também. Criamos um sistema diferente, formamos uma geração de professores de um novo método, mais abrangente.

CC: Como o senhor vê a volta da Música aos currículos escolares?

AG: A volta da educação musical aos currículos foi muito importante, mas vai enfrentar sérios entraves justamente por causa deste tempo que se concentrou esforços em formar apenas bons executores de partituras. É difícil encontrar professores de música que ensinem a pensar a música, a sentir, a criar melodia. Tiraram os livros da estante e não colocaram nada no lugar. Isso em parte explica o que ocorre no panorama musical atual. Profissionais fazendo canções com o mínimo de acordes e notas, sem cuidado. Este é o momento de se trilhar o caminho todo, de novo.