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Senhores do divã

por Redação Carta Capital — publicado 31/03/2012 07h53, última modificação 31/03/2012 07h53
Bravo! desta semana fala sobre Um método perigoso, novo filme de Keira Knightley, e Rodrigo Santoro como Heleno, o craque bonito e destemperado
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Sutil Estranheza. Jung (Michael Fassbender) e Sabina (Keira Knightley), sexualidade atiçada

Por Orlando Margarido

Um Método Perigoso

David Cronenberg

Um método Perigoso, a partir de sexta 30 nos cinemas, confirma uma anormalidade na filmografia de David Cronenberg, ele que tanto já praticou o fora de normal em sua obra, ou ao menos o excêntrico. Mas o que pode parecer uma mudança de curso notória desde Marcas da Violência (2005), talvez apenas esconda um registro mais sutil e refinado dessa estranheza, como tratar da ética muito peculiar de personagens, tanto naquele quanto em Senhores do Crime, o filme seguinte. Seu território agora é a psicanálise, portanto nada que possamos chamar de comum, banal. Apenas que a forma de abordá-la, numa história relatada mais à maneira convencional, foge dos padrões, ainda que repise seus temas prediletos, ética incluída.
De convenção, como se sabe, não sofreram Sigmund Freud (Viggo Mortensen), 0 pai da teoria sicanalítica, e seu discípulo Carl Jung (Michael Fassbender). É do encontro de ambos em 1907, decisivo para a área, de que trata o filme com roteiro hábil e instigante de Christopher Hampton. Na trajetória de mestre e seguidor haverá cumplicidade, mas também discordância, o que leva ao rompimento e a um destino próprio para Jung. No foco maior sobre este, o drama nos apresenta uma terceira figura essencial no conflito, a paciente Sabina Spielrein (Keira Knightley), de origem russa e internada na clínica suíça onde Jung atua. De analisada, ela passa a amante do médico e mais tarde analista ela mesma em seu país, até ser vítima do nazismo. Quem sabe por atiçar o fator sexualidade em ambos os doutores, mas a cada um com ponto de vista diverso, não cabe mais a Sabina a condição desafiadora do comum que Cronenberg gosta de ostentar em seu cinema-divã.
Estranho prazer
Por Orlando Margarido

Beleza Adormecida

Julie Leigh

Que o filme de estreia da australiana Julie Leigh nos chegue no mesmo momento do novo trabalho de David Cronenberg, torna-se interessante imaginar o que o cineasta canadense faria com mesmo material. Como está, Beleza Adormecida não chega a frustrar com seu relato condizente na bizarrice ao passado de Cronenberg, mas carece do toque inflamável tão espontâneo deste. Tudo leva a esperar mais combustão quando acompanhamos a jovem Lucy (Emily Browning), contratada para um novo trabalho. Numa espécie de confraria, um clube privado para homens mais velhos, ela dispõe-se num quarto, já sedada e desacordada, a ser objeto das fantasias dos clientes, apenas impostos alguns limites.
Essa bela adormecida, como alude o título original, está longe, claro, da vida de princesa. É mesmo o avesso de uma, criada por mãe alcoólatra e violenta, e que conta com bicos e estratagemas para sobreviver. Isso não explica, contudo, a opção pelo estranho emprego e a predileção por se aproximar de figuras marginalizadas, a exemplo do drogado que ajuda. Tampouco o dinheiro recolhido nas noites do clube parece interessá-la, pois o queima ou doa ao amigo. A diretora parece nos apontar o caminho de um mal-estar natural da jovem com sua existência ou da liberdade com o corpo e a sexualidade que o mundo moderno possibilita. Mas, com isso, promove mais um componente fetichista do que realmente de reflexão sobre o assunto. O espectador, assim, pode sair do cinema com o sentimento da bela que acorda do sono profundo sem saber o que lhe passou.
Em defesa do Verde

Por Eduardo Graça

O LORAX: Em busca da Ttrífula Perdida

Chris Renaud

Lixo inútil. Foi assim que um dos críticos mais prestigiados dos EUA, A. O. Scott, classificou, em artigo no New York Times, O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, a adaptação do livro homônimo de Theodore Geisel Seuss, o Dr. Seuss (1904-1991), que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta 30. Levada à tela por Chris Renaud, de Meu Malvado Favorito, a animação foi um dos maiores sucessos de Hollywood este ano, amealhando 178 milhões de dólares somente nos EUA. Tudo isso apesar do nariz torcido da inteligência liberal, “o filme é tolo, doutrinário e ligeiramente histérico”, escreve Scott, e dos conservadores de plantão, dispostos a acreditar que a produção faz parte de uma conspiração pró-Obama.
Escrito em 1971, O Lorax tem em seu personagem-título uma espécie de profeta do apocalipse ambiental. “Eu sou o Lorax e falo em nome das árvores do planeta” tornou-se uma das frases de reconhecimento mais imediato entre leitores americanos. A história é contada por personagens como o Uma-Vez-Ildo, empreendedor que corta todas as árvores em forma de pirulito. Um desastre ambiental. A ação se dá quando o menino Ted decide descobrir por que não existem árvores de verdade.No Lorax original, a voz do personagem-título é de Danny DeVito, que, assim como a criatura, não tem papas na língua. “O Lorax sou eu! Ele é rabugento, charmoso e luta para proteger o mundo. Pensamos de modo similar.”
Sem futebol, só arte

Por Orlando Margarido




Por que o futebol custa tanto a se ver apropriadamente no cinema brasileiro? Não será Heleno a responder mais uma vez essa questão ao chegar às telas nesta sexta 30. Na via da ficção escolhida pelo diretor José Henrique Fonseca para abordar a trajetória real e de contornos trágicos do craque Heleno de Freitas (1920-1959), continuamos com um placar mais favorável aos documentários recentes sobre o tema. Falta suor, garra para usar quase um jargão da área, e sobra arte no filme. Mas não aquela originada dos pés do atacante mineiro que fez carreira no Botafogo. No preto e branco vívido da fotografia de Walter Carvalho e na direção de arte de Marlise Storchi temos menos um mergulho na personalidade extravagante do jogador, craque irascível, e mais um bem elaborado contexto de sua época.



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