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Senhora novidade

por Rosane Pavam publicado 22/12/2009 16h36, última modificação 15/09/2010 16h37
O inestimável editor Daniel Pinheiro, talento entre os grandes do jornalismo, capaz de tratar tão bem as palavras da conversa quanto as dialogadas em linhas, pede-me os raciocínios que não dei a esta modesta coluna no ano quase findo.

O inestimável editor Daniel Pinheiro, talento entre os grandes do jornalismo, capaz de tratar tão bem as palavras da conversa quanto as dialogadas em linhas, pede-me os raciocínios que não dei a esta modesta coluna no ano quase findo. Seria algumas vezes melhor se o próprio Daniel falasse a respeito do ano que o atravessou. Ainda anseio que faça isso. Mas cumpro minha parte, começando por pedir desculpas ao eventualíssimo leitor pelas ausências. Vivo, aliás, de me desculpar.

Não sei se entendo a jovem blogosfera. Modos e pensamentos antigos me perseguem. Sou jornalista, devo dizer, por uma fatalidade, uma teimosia de moleque. O que martela em meu coração arrebenta a porta da sala dos outros e talvez por isso, às vezes, eu fale alto demais. Conversar em tom advertido é o que supostamente me credencia a uma coluna em site de revista tão prestigiada. Gosto de falar sobre o que aprendi, embora isto possa quase certamente interessar a uma pequena porção.

É assim meu twitter, um falar alto. E também meu facebook, em que tento cativar os pobres amigos com um novo link, uma palavrinha assoprada pelo tempo, ressuscitada online. Não chego muito longe nesse processo. Escrever, para mim, é outra coisa, uma expressão em papel almaço, que implica refazer o pensamento além da conta. Sofro com aquelas palavras curtas, aqueles 140 toques. Às vezes, consigo um bom resultado, mas parece que não fui eu a
chegar até ele, ele é que soprou no meu ouvido.

O que essencialmente gostaria de dizer, sobre estes meses transcorridos, é que o ano de um jornalista nada tem de especialíssimo. Um jornalista existe para relatar alguns acontecimentos dos quais não foi responsável, e terá sorte se os fatos a seu cargo forem grandes. Um bom livro que leu, sobre cuja existência o jornalista não tem qualquer poder, deve ser resumido como se ele espremesse uma laranja, às vezes servindo o caldo sem bagaço.

É um bom ano para o jornalista, contudo, se ele pode viajar. Acho que já contei isso em algum momento. Uma vez, em São Paulo, entrevistei o Nobel de Literatura V.S. Naipaul, que havia trabalhado como repórter especial por um breve tempo, e tive a ideia de lhe perguntar se vira algo bom em fazer jornalismo. Adorei que ele tivesse sido seco e cínico: "Viagens", respondeu-me.

Não viajei durante este ano na estrita concepção do deslocamento entre cidades, não para exercer o jornalismo. Mas viajei na palavra dos outros, que tive, para efeito prático, de cortar sem pena. Penso nas doces e difíceis pessoas com quem conversei, nos sinceros, dissimulados e também nos mudos personagens dos fatos. Minha pretensão ingênua é a de que ninguém tenha me escondido alguma coisa importante. Desta crença foi feito meu trabalho todos os dias: a de que soubesse, de uma forma ou de outra, dizer ao sofrido leitor, muito apressadamente, toda a verdade.

Para essa gentil criatura diante do monitor, digo, sobre todos os que entrevistei neste ano, que poucos me impressionaram tanto quanto o magnífico escultor , que ainda se dirige ao trabalho na Faap paulistana, aos 80 anos. Foi ele quem me ensinou, com a humildade de seu corpanzil, que os nossos tempos não admitem o confronto. Os de hoje não querem discutir, não querem violentar-se pelas ideias, já que elas tanto lhe custaram. Basta às pessoas que se arrisquem nas ruas.

Todos querem a insustentável leveza. Por isso, disse-me Vlavianos, a escultura não seria mais possível. A escultura é o confronto do homem com sua matéria. Mas o que fazer se nos tornamos fracos diante dela? Hoje, usam o computador para os moldes. Mas o computador, adverte Vlavianos, tem este lado terrível de pensar por nós, mais uma vez nos desobrigando do esforço e do raciocínio.

Chorei em alguns trechos da biografia de Plínio Marcos por Oswaldo Mendes, , feita com aquela veia de amigo. O dramaturgo era esse cara do confronto, para o bem de quem amava. Hoje, se confrontamos alguém, nós não raro o fazemos para destruí-lo. Não temos mais amigos, a bem dizer.

também confrontava a vida e as palavras por paixão ao outro. Talvez a biografia de Benjamin Moser não chegue a dizer isto. É um texto para o público americano, bem feito, envolvente, direto aos acontecimentos pesquisados, em que falta, contudo, a descrição da verdadeira alma literária da escritora. Estive com Moser em São Paulo e ele me pareceu gentil e firme. Acreditava ter visto uma Clarice nova, mas não dispensava da verdade outras Clarices que reivindicamos nossas. Isto me pareceu bem modesto e crível para o autor de uma versão tão bem-sucedida desta vida alheia.

E Moser tem a simpatia do menino que desconhece certas coisas e olha seu objeto como um enigma. Lygia Fagundes Teles me disse uma vez que ela e Clarice lamentavam que as professorinhas tornassem mais complicada do que o necessário a trama de seus livros; assim, um escritor suava por nada. Não é o que acontece com Moser, contudo. Ele não complica, como uma professorinha. Apenas simplifica. Sem ser verdadeiramente um escritor, Moser escreve bem.
Não se coloca no lugar de Clarice, como um romancista, ele apenas a observa, embora isto também não seja, cá entre nós, muito fácil de fazer. O biógrafo falava durante a entrevista e eu, como sempre, julgava entendê-lo. Na noite que se seguiu a esta conversa, sonhei que uma senhora me sorria ao qualificá-lo. Ele era "o homem sem tarde", me dizia.

O que a velha estaria tentando sugerir? Que ele não alcançara ainda o fim de um dia, de uma vida? Um jovem é sempre um iluminado, e a luz o cega, foi o que ela pareceu ter-me dito. Moser é bom, mas não sabe tudo. Conclui e compara com liberdade. Sua Clarice é recheada de fatos, e talvez tenha pouca voz. Ainda assim, estranhamente, é uma linda Clarice no espelho.

Já escrevi sobre esses assuntos na revista CartaCapital, em edições anteriores. Mas nunca paramos de escrever, passada a simples necessidade de noticiar. É um pecado abandonar os personagens. De muitos, não esqueço. , por exemplo, a quem nunca entrevistei, mas sobre quem escrevi. Pesquisei nele sua paixão musical, sua coerência ao ficar quieto enquanto o mundo parecia desabar em 1968. O mundo não ruiria e ele sabia disso.

Aprendo com as leituras e com o conversar. Porque todos me falam fundo. Redescobri Aurélio Becherini, o fotógrafo de São Paulo desde o fim do século 19, tão ágil e humano, e o crítico de arte e historiador Luís Martins, sem medo de ser impressionista. Todas as exposições de fotografia emocionaram, fossem as de,  ou . A fotografia é o novo lápis (ou a nova caneta), disse-me a densa curadora Rosely Nakagawa. Quem olha vê.

Gostei de saber que Steven Soderbergh tem o prazer pela história crua, com Che, e que Andrea Tonacci continua a movimentar nosso olhar no incrível Serras da Desordem. Beto Brant com O Amor Segundo B. Schianberg ousa no formato e cutuca a alma. É claro que tudo isto não se compara a ver na tela pequena de minha tevê um clássico como Yojimbo e constatar que Akira Kurosawa inventou grande parte de minha paixão pela câmera, pela atuação, pelas palavras nos filmes.

Falando em palavras, não perdi a dor que existe em , que fez o CD Cristalina para nos enganar com carinho. Se um dia você for avisado de que a turma do artista PB está musicando um filme mudo, corra para ouvir. Os filmes dos primeiros anos do cinema eram realmente intensos, com a paixão pela arte. E a música ao vivo que ele lhes dá os torna reais, como em um sonho.

Por fim, entre tantas outras coisas que necessariamente me fogem, ainda sorrio ao lembrar a voz caipira do maior entre os desenhistas americanos,, do outro lado da linha, de Paris. Ele desejava me explicar quem era e o que fizera, traquinas, mas humilde. . Pelo telefone, o que ele não sabia, dizia não saber. Sinceramente, pareceu-me um menino, com a liberdade de experimentar as coisas, de conhecê-las, mas sem a pressa de adotar as novidades. O novo, ele me disse, não é necessariamente o bom. Vou levar este pensamento a minha próxima incursão ao mundo da rede de computadores.

Que o ano novo risque de nossas vidas as novidades sem motivo.