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Bravo! CD

Sem retórica, com poesia

por Redação Carta Capital — publicado 27/11/2012 10h57, última modificação 27/11/2012 11h04
Integrante do grupo Fino Coletivo, Alvinho Lancellotti lança "O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos", disco minimalista e com uma contínua reversão de expectativa
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Por Tárik de Souza

O pai, o compositor Ivor Lancellotti, é menos conhecido que suas músicas, gravadas por cantores como Roberto Carlos (Abandono), Clara Nunes (Sem Companhia, Amor Perfeito) e Nana Caymmi (Velha Cicatriz, Rastro de Perfume). O irmão mais velho, o baterista Domenico Lancellotti, participou de um trio rotativo com Moreno Veloso e Kassin, atua na bailarina e anárquica Orquestra Imperial, grava solo, e com a cantora Adriana Calcanhotto (O Micróbio do Samba).

Álvaro, o Alvinho, Lancellotti, integra o grupo Fino Coletivo e estreou solo em 2007 com Mar Aberto. Em O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos, trecho da letrado maleável samba rock Alegria da Gente, ele lapida seu estilo minimalista e investe na contínua reversão de expectativas. Como em Autoajuda, cadenciado por percussão em copo, fósforo, ovinho,  encordoados por bandolim dobro e guitarras, onde prega, na contramão dos conselheiros
de aluguel: se as coisas não vão bem/ não invente/ desocupe a mente. Entre congas, ganzá, balde e tamborim, além de violão, cavaco e guitarra de trilha de faroeste, Vidigal alista  favelas cariocas, sem mascar velhos clichês.

Também o surrado enredo do carnaval vem desidratado em Meu Bloco do Amor (samba de dois/ que balança no ar), assim como a incursão afro de Gira de Caboclo, onde a convivência entre guitarras, surdo, darbuka, chaves e ganzá não soa artificial. Alvinho domina diversos sotaques rítmicos, do samba ao afoxé, mas prefere repaginá-los com economia de meios, utilizando timbres e texturas incomuns. Recorre até ao coloquial instrumento do assovio. Despido de retórica, mantém a densidade poética, como em Vazio, enevoada por cello: do meu olhar água de cílios/ quero chegar onde sequer há vestígio.

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