Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Sem querer fui me lembrar

Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Sem querer fui me lembrar

por Matheus Pichonelli publicado 28/11/2014 16h05, última modificação 28/11/2015 09h04
Assistir a um show de Paul McCartney é abrir uma caixa de memória: a apresentação é quase sempre igual, mas nós já não somos os mesmos
André Borges / Fotos Publicas
paul.jpg

Paul McCartney durante o show de Brasília da atual turnê

Teve The Long And Winding Road. Como sempre. E Band On The Run. Como sempre. Teve saudações em português. Como sempre. Teve dedicatória para Linda, John e George. Como sempre. Teve fogos em Live And Let Die. Como sempre. E lágrimas, muitas, ao fim de The End, com o perdão da redundância. Como sempre.

Era tudo tão óbvio que parecia necessário: no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você faz. Típica mensagem motivacional de Facebook. Quem não sabe disso? Mas tinha algo maior naquela voz intacta, impecável, imprescindível. Bem maior. Era a lembrança melancólica do fim da banda que fez a gente cantar a vida inteira. “Será que algum dia eles vêm aí para cantar as canções que a gente quer ouvir?”, perguntava o Tavito, lá do Clube da Esquina.

Não, eles nunca vieram. Quem veio, e tem vindo sempre, foi só, e não apenas, o Paul, o caixeiro-viajante que leva nas costas não um repertorio, mas nossas caixas de memórias, para serem abertas, ouvidas e (re) lembradas em qualquer canto do mundo onde se reúnam dois ou mais fãs em seu nome. Da arquibancada, eu, um ponto minúsculo naquela profusão de câmeras acionadas, imaginava o que faria alguém de 72 anos, com a vida ganha, repetir, dia sim/dia não, às vezes dia sim/outro também, o mesmo refrão, praticamente na mesma sequência, sempre na mesma entonação. Não cansa? Não enjoa? Ainda dá frio na barriga? Ainda desafia? Ainda emociona?

Capa do álbum Band On The Run, de Paul McCartneyMas as perguntas iam até o palco, batiam e voltavam. O que eu fazia ali? O que fazia sozinho, cansado, sob chuva, com o humor na lua e quase sem dinheiro depois de garantir um assento a preços imodestos naquele show que já havia assistido? Quanto valia aquela reprise, que a gente assiste, também dia sim/dia não, graças àquele VHS que o pai comprou na segunda vinda dele, em 93?

O que eu buscava, e ainda não sabia, era o silêncio, um silêncio incrustado nas caixas gigantes de som e megawatts. Pois algo parece estranho quando precisamos de três horas de barulho para degustar alguns minutos de paz. E é. Mas era isso o que eu, inconscientemente, buscava.

Esse silêncio, a certa altura da vida, a gente só alcança aos goles ou aos berros. Mas tudo o que eu havia bebido antes do show foi um suco de laranja em companhia da amiga Bárbara Castro, que me oferecera abrigo, junto com o Leandro Beguoci, para passar a noite ao fim do show. Em 2010 eu havia enchido a lata e antes do Na-na-na-na-hey-jude já não sabia onde estava: abraçava pai, irmão, primo, tio e desconhecidos com a alegria de quem mergulha numa realidade até então só conhecida pelo VHS. Há quatro anos os silêncios ainda me incomodavam, e eu podia gritar à vontade.

Desta vez cheguei quieto. Sóbrio. Mais pensativo do que deveria. Não abracei ninguém a meu lado (só havia casais ao meu redor, e não soaria bem tirar alguns deles para dançar). Estreitas, as arquibancadas do novo Palestra pareciam feitas para a gente encolher o joelho, se contorcer e se conter. Em dia de jogos, não temos tantos gols a comemorar como antes.

À entrada, postei em silencio que a Turiassu estava alagada e que, ainda assim, a torcida parecia feliz. Da última vez que isso havia acontecido a atração ainda era o Edmundo.

Ainda em silêncio, possivelmente pensando em voz alta, lembrava de um menino que passava horas sozinho tentando quebrar o silêncio de casa. Lembrava da velha caixa de som num apartamento em que bastava abrir a sacada de vidro para observar o Parque Infantil, um oásis de sombra no calor de derreter músculos e disposições na nossa cidade. De lá, com a ajuda de uma banqueta, fuçava os discos do meu pai e ouvia tudo o que me parecia velho e novo. Gastava as tardes tentando desenhar aqueles cabelos e bigode da capa de Let it Be. Eu sei, vocês não vão saber, mas naquele quarto de Araraquara a linguagem truncada entre pai e filho, criança e adulto, começava a ser traduzida pelas letras de um inglês que eu mal entendia – e que hoje parecem tão óbvias quanto dizer que ontem todos os meus problemas pareciam distantes, mas que agora preciso de um lugar para me esconder. Esse lugar ficava sob a marquise de uma arquibancada recém-inaugurada.

Aquele menino se trancava no quarto, fechava a sacada, apagava as luzes e gritava alto para imaginar como seria ouvir tudo aquilo ao vivo e a cores. Pois no show, quando comecei a cantar e as luzes se acenderam só conseguia pensar naquele quarto escuro, naquela cidade quente, naquele disco empoeirado. E me lembrava do show de quatro anos atrás. A apresentação era praticamente igual, mas eu já não era o mesmo: em quatro anos, me casei, troquei três vezes de emprego, meu vô morreu, meu filho nasceu, meu pai operou, se recuperou, parou de fumar, meu tio idem. E tudo o que eu penso, além de como vou voltar ao trabalho no dia seguinte, é se meu filho vai fuçar em meu iPod empoeirado pra quebrar, ele mesmo, os silêncios da nossa casa e preencher as lacunas das palavras que não soube dizer. Essas palavras podem ser cantadas enquanto houver memória. Enquanto puder me imaginar naquele quarto. Enquanto volto à vida normal e me pergunto se algum dia eles vêm aí. Para cantar as canções que a gente quer ouvir.

registrado em: