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Cultura

Crônica do Menalton

Sem morrer de inveja

por Menalton Braff publicado 18/03/2016 18h17
Um dia perguntei a meu médico quando poderia parar de tomar o medicamento. Ele riu e me disse que não tivesse pressa de que tal dia chegasse
Remédios

Já ouviu falar de automedicação?

Sem querer imitar o João Ubaldo Ribeiro de uns cinco anos atrás, andei também envolvido, ou quase, com o Acidente Vascular Cerebral, o famigerado AVC. Meu caso foi mais simples e dele vocês nem ficaram sabendo, mas estiveram na iminência de se verem livres desta coluna – pesar para meus amigos e prazer para os inimigos. Por falar nisso, antes de começar a cometer esta coluna, não tinha notícia de inimigos, que em minha vista modesta pareciam não caber.

O caso é que, logo depois do carnaval, um vento frio, destes que vivem nas sombras, sem pedir licença, abateu-se sobre este que vos fala, produzindo-lhe uma gripe ou qualquer coisa parecida. Nem zika, ou dengue, tampouco chikungunya. Uma gripezinha bem rastaquera, dessas que antigamente a gente achava que nem era doença. Dor no corpo, cefaleia, mal-estar geral e, não contente com tais estragos, presenteou-me com uma coriza de dar medo.

Sou hipertenso, mas mantenho minha pressão em condições aceitáveis à base de medicamento apropriado que, diariamente, na hora do desjejum, tenho o prazer de ingerir. Me disseram que minha saúde dependia daquele comprimido (diariamente um apenas) e não há diabo que me tente a falhar uma vez que seja.

Um dia perguntei a meu médico quando poderia parar de tomar o medicamento. Sim, porque se ele manda, eu tomo, mas podendo me livrar, ah, não reluto. Ele riu com cinismo e me disse que não tivesse pressa de que tal dia chegasse. Muito sutil, meu médico.

E voltando à gripe. Usei tudo que tenho em casa, de pingar, de tomar, de assoar, para debelar a crise do meu sistema respiratório, que parecia nunca mais voltar a ter alguma utilidade. Nada resolvia. Numa farmácia, finalmente, a indicação de um remédio batuta. É tiro e queda, me disseram. E eu não sou de duvidar de quem sabe mais que eu. Não vou declinar o nome do medicamento, que não tenho autoridade para tanto, mas o fato é que ele era contraindicado para hipertensos. Só isso.

Três dias depois, minhas narinas fremiam de prazer com a passagem deste ar puro e cheio de oxigênio. Pensei que estivesse salvo. Foi quando começou uma dor de cabeça terrível. Fui medir a pressão e lá estava ela, a pressão, em níveis que eu desconhecia e nem imaginava possível. Ou seja, eu não sabia, mas andava à beira de um derrame. Fui parar no hospital.

Você já ouviu falar em automedicação?