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Sem medo do “créu”

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 13/05/2011 12h17, última modificação 16/05/2011 19h34
Uma das maiores cantoras brasileiras, raramente classificada como tal, Alcione lança selo para acolher uma verve que ultrapassa o samba. Por Pedro Alexandre Sanchez. Foto: Adriana Lorete
Sem medo do "créu"

Uma das maiores cantoras brasileiras, raramente classificada como tal, Alcione lança selo para acolher uma verve que ultrapassa o samba. Por Pedro Alexandre Sanchez. Foto: Adriana Lorete

A cantora entra na sala da gravadora e, brincalhona, brada com a voz de trovão peculiar: “Chegou a melhor cantora do Brasil!” “E aqui está a segunda, lhe esperando”, resigna-se de dentro Maria Bethânia, para assombro de Alcione, que não sabia da presença da colega. “Quase me jogo para debaixo da mesa”, envergonha-se muito tempo depois da cena a maranhense de 63 anos. Com quatro décadas de carreira profissional, ela jura que jamais proferiria uma frase daquelas, a não ser por brincadeira. “Nunca achei que eu era a maior, nem na época nem agora”, afirma, sentada na ampla sala de sua casa, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. “Hoje posso estar entre as melhores, mas eu estava começando, como queria ser a maior?”

Alcione é mesmo uma das grandes cantoras brasileiras, mas raramente classificada como tal, porque canta samba sem nenhum pejo de soar romântica, qual uma mistura de Clara Nunes com Roberto Carlos. A liberdade ela conquistou aos poucos. Sua versatilidade nem sempre é percebida. Neste mês ela grava o DVD e o CD ao vivo que serão os primeiros lançamentos de sua própria gravadora. “Resolvi ter o meu selo, Marrom Music. Chique, né? Vou cantar Armando Manzanero, Charles Aznavour, lados B nunca tocados no rádio. Vou cantar Burt Bacharach.”

A intérprete chegou à gravadora Philips em 1972, pelas mãos do sambista paulista Jair Rodrigues. O diretor artístico era Roberto Menescal. “Ele não apostava no romântico, porque queria que eu ficasse no samba”, relembra. “Estourei com Não Deixe o Samba Morrer (1975)”, completa, citando a música que a celebrizou e é até hoje um dos pilares do gênero. “Achavam que cantor negro só podia cantar samba. Quebrei um pouco isso quando estourei Pode Esperar, em 1978.” Na esteira de Não Deixe o Samba Morrer, Sufoco (1978), Gostoso Veneno (1979) e Garoto Maroto (1986), transformou-se numa das maiores vendedoras de discos do Brasil. “Quem quebrou esse tabu foi Clara Nunes, com mais de 300 mil cópias. Aí eu vim vendendo 500 mil, 600 mil. Bethânia, com Álibi (1978), foi para 1 milhão. Então começaram a respeitar as mulheres no meio.”

Descendente de índios, africanos e portugueses, a “Marrom” poderia ser considerada uma cantora de jazz se fosse norte-americana. Filha de João Carlos, mestre da Banda de Música da Polícia Militar do Maranhão, cantou na orquestra do pai, a Jazz Guarani. “Aprendi a cantar ouvindo Angela Maria, Núbia Lafayette, Lana Bittencourt, Elizeth Cardoso. Um amigo tinha discos de jazz, e a primeira cantora norte-americana que escutei foi Ella Fitzgerald.”

O pai teve nove filhos com sua mãe, Filipa, além de outros oito com “outras senhoras”. Ele lhes dizia: “Quando um homem olhar pra vocês com cara feia, já tomem uma atitude, porque no segundo dia ele te empurra, no terceiro ele te bate”. Em 2007, Alcione gravaria o samba Maria da Penha, em referência à lei sancionada em 2006: Você não vai ter sossego na vida, seu moço, se me der um tapa/ da dona Maria da Penha você não escapa. Alcione não se diz feminista, mas sambas como o popular Meu Ébano (2005) complementam uma vocação à autoafirmação de gênero e etnia. Você é um negão de tirar o chapéu/ não posso dar mole, senão você “créu”, diz a letra fanfarrona. “Quando mostrei para meu diretor artístico, ele disse: “Alcione, você não vai dizer ‘créu’, não faz parte do seu perfil”. Fiquei passada: “E você sabe se eu não gosto de um créu bem dado?” Ele riu e me deixou gravar. O “créu” de Alcione gerou, três anos mais tarde, a Dança do Créu e o funkeiro carioca MC Creu. “Por que eu posso dizer ‘créu’ e eles, não? Eu até tinha uma camisa escrita ‘yes we créu’.”
A cantora despista rusgas com o rock como as relatadas por Lobão, segundo quem sambistas (Alcione incluída) se recusavam a cumprimentar roqueiros como ele nos anos 1980. “Eu não suportava Lobão. Não porque ele era roqueiro, mas porque debochava de juiz. Mas um dia fui chegando ao programa do Chacrinha, ‘Marrom da minha vida, sou tão seu fã’, ele me deu foi muito beijo no rosto. Fiquei com remorso, por que implico com o rapaz?”

O apreço pelos roqueiros evoluiu: “Só gosto dos Rolling Stones e dos Guns n’Roses. Sou apaixonada por Guns n’Roses, Axl Rose parece uma criança no palco, me lembra Janis Joplin. Gostava também do Queen, aquele cara cantava muito”. Sem filhos, ela tem 38 sobrinhos. “Como é o nome desse filho de Rita Lee que toca com ela? Tomei conta desse menino em Montreux, quando Rita precisava ensaiar.”

Em territórios mais bossa e MPB, lembra-se da exímia violonista Rosinha de Valença, que após uma parada cardíaca viveu em estado vegetativo por 12 anos até morrer, em 2004. “Bethânia me apresentou Rosinha. Um dia cantei Rio Antigo (canção nostálgica de Chico Anysio e Nonato Buzar, que gravou em 1979) bem perto do ouvido dela. Ela olhava assim pro espaço, mas sabia que era eu que estava ali. Me emocionou muito.” Alcione não economiza elogios a Elza Soares (“para mim é a maior sambista que o Brasil já teve”), Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Beth- -Car-valho, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra, Mart’nália. A Clementina de -Jesus reserva comentários prazerosos, imitando sua voz resoluta. “Minha filha, quando lhe vejo na televisão eu choro!”

Alcione já se sentiu pouco à vontade nos quintais do samba. “No começo, me intimidava chegar no (bloco carioca) Cacique de Ramos. ‘O negócio dela é bumba-meu-boi’, às vezes eu ouvia isso. Fui à Mangueira pela primeira vez num sábado, igual a peixe fora d’água. Depois fiquei de casa”, evoca. Não surpreendem os narizes torcidos contra Alcione, no samba ou fora dele. São poucos os forasteiros admitidos nos terreiros do samba carioca, como poucos os cantores que, embora fiéis ao samba, declaram amor público ao jazz, à música romântica, ao rock, a Michael Jackson e à Dança do Créu. “Com o tempo fui fazendo outros ritmos, tambor de crioula, forró, reggae. Até que gravei Overjoyed (1996).” Salvo engano, não deve haver outro sambista no mundo que tenha regravado Stevie Wonder ou qualquer outro herói soul da Motown. Yes, ela créu.