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Sem crítica social, funk de ostentação cai no gosto da classe média

por Marsílea Gombata publicado 08/09/2013 09h42, última modificação 08/09/2013 11h16
Popularização do estilo criado na periferia de São Paulo cresce, mas não o livra da criminalização
Dubes Sonego Junior
nego blue

Nego Blue em show na Virada Cultural 2013, no centro de São Paulo

Quando deixou para trás o cavaquinho e as letras melosas de pagode para cair no universo do funk de ostentação Nego Blue viu sua vida mudar. Começou a assinar o nome com a sigla MC, seus shows mensais antes restritos às comunidades passaram a ocorrer cinco vezes por semana em boates da classe média e o dinheiro aumentou.

Nego Blue é estrela de um ritmo que ganha cada vez mais adeptos. Nele, tudo parece mais glamoroso: em vez de letras que exaltam armas, drogas e sexo explícito, prevalece a apologia a uma vida regrada a champagne, uísque, Camaros e mansões. “Estamos quebrando barreiras”, conta entusiasmado MC Nego Blue, nascido em Cidade Tiradentes e morador de São Mateus, zona leste de São Paulo. “O funk de ostentação me levou onde nunca sonhei estar. Quando me vi no Hard Rock Café, em Belo Horizonte, onde só para entrar são 200 reais, fiquei bobo. Não sabia se olhava os carros pendurados no teto ou para o público cantando”, lembra.

Mas a que se deve tamanha aceitação desse “novo funk” - até ontem “de preto, pobre e favelado”, como diz a música tocada exaustivamente pelo DJ Marlboro nas festas de classe média?  “As pessoas ficam menos escandalizadas ao ouvir músicas sobre marcas de roupa do que sobre drogas e crimes”, explica Danilo Cymrot, doutorando em criminologia pela USP que estuda o movimento de criminalização do funk. “No entanto, o que fortaleceu essa emergência do ostentação foi a repressão de um outro tipo de funk”, reforça.

O som mais “light”, que abre mão da crítica social - marca do rap e dos antigos proibidões - vem ganhando terreno em meio a uma onda que reprime os bailes funks em vias públicas. Em abril, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou o projeto de lei 2/2013, dos vereadores Conte Lopes (PTB) e Coronel Camilo (PSD), que proíbe a realização de bailes funk em vias públicas, praças e parques, além de qualquer outro tipo de evento musical não autorizado. A proposta faz lembrar a Resolução 013/2007, assinada pelo secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, que dava plenos poderes para a polícia proibir ou autorizar eventos culturais, sociais ou esportivos de acordo com seus próprios critérios. A medida foi revogada em agosto e será reformulada depois de ter sido taxada de antifunk. Mas, por seis anos, coube à polícia militar dar aval a qualquer festa nas favelas “colonizadas” pelas UPPs.

“As manifestações culturais afrobrasileiras na nossa história sempre receberam um olhar criminalizante, como já foi com a capoeira e com o samba”, lembra Vera Malaguti Batista, professora de criminologia da UERJ e secretária geral do Instituto Carioca de Criminologia. “Já é tradição olhar as expressões culturais dos pobres, principalmente dos afrobrasileiros, com esse olhar.”

Maratona. Em São Paulo, embalado pelos cinco ou seis shows por semana, Nego Blue se vê envolto em fama e uma longa fila de meninas que esperam para tirar foto depois de um show no Club A Moema, que abriu espaço na agenda de música eletrônica para receber noites de funk de ostentação.

“As músicas do Nego Blue falam de sonhos que todo mundo quer ter: estar em lugares melhores, ter roupas boas, perfumes, bebidas caras”, observa seu produtor Ronaldo Dias. “E a classe alta gostou porque fala de uma visão sobre o mundo deles, um mundo que todos querem provar.”

Os números comprovam o sucesso. Um dos maiores hits do MC Nego Blue, a música É o Fluxo contabiliza 939.377 de visualizações no Youtube. Já o videoclipe de Na Pista Eu Arraso, do colega MC Guime, alcançou 15.384.559 visualizações em pouco mais de 3 meses.

“Vejo o estilo como uma consequência natural de uma cultura de massa em uma sociedade consumista”, observa Guilherme Pimentel, fundador da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk). “A ostentação é uma forma mais agressiva do jovem se sentir inserido nessa sociedade de consumo preconceituosa, que dá mais valor ao que você tem do que ao que você é. Esse estilo só vai perder força na cultura artística depois de perder força na sociedade.”

O interesse crescente, no entanto, não livra o estilo da criminalização que o ronda. A morte de MC Daleste em cima de um palco durante um show em julho mostra que, mesmo sendo melhor assimilado, o funk de ostentação não consegue livrar seus protagonistas do preconceito que os agride rotineiramente. “Se eu disser que não há discriminação pela cor, estou mentindo”, diz Nego Blue. “Basta eu colocar as naves [carros de luxo] na rua para tomar um enquadro atrás do outro.”