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Sem concessões ao público, 'O Clube' abre CineCeará

por Orlando Margarido — publicado 22/06/2015 11h53
Filme de Pablo Larraíns faz análise sombria do autoritarismo e das mazelas da Igreja que envolve abuso de crianças e sequestro de bebês
Cena de 'O Clube'

Cena de 'O Clube'

Ao abrir sua 25.ª edição com O Clube, o CineCeará comprovou ao que veio em uma data tão significativa, em especial entre o cenário dos festivais nacionais de cinema que lutam pela permanência, e apontou qual seria a diretriz desta curadoria.

É um ano especial sem dúvida e o filme de Pablo Larraín talvez tenha sido até uma aposta arriscada em detrimento da sequência da programação, que terá de se superar ante a força do drama nada palatável do chileno. Berlim não se deteve ante essa análise sombria do autoritarismo e mazelas não apenas da Igreja, que é seu alvo primeiro e mais evidente, e concedeu ao cineasta o Grande Prêmio do Júri.

Talvez merecesse o prêmio maior, o Urso de Ouro. Mas essa é outra história e tem que levar em conta o gesto político tradicional da Berlinale, em parte ou em muito a justificativa de preferir Jafar Panahi e seu Táxi, além da qualidade que o filme tem. 

O que importa é a determinação de se apresentar, sem concessões a um gosto de público, uma obra excepcional em várias camadas. Na primeira temos a trama em si, em que padres e uma religiosa caídos em desgraça por motivos como abuso de crianças e sequestro e adoção indevida de bebês de mães solteiras vivem reclusos num vilarejo do litoral chileno.

A esta situação já perturbadora soma-se o suicídio de um novo "integrante" do grupo e a consequente investigação realizada por um sacerdote encarregado pela Igreja. Como epicentro da tragédia está um jovem molestado no passado e que, traumatizado, persegue os sacerdotes.

Mas Larraín adiciona outras peculiaridades ao estranho conjunto, como a vocação de apostar em corridas de cachorros para aumentar a renda, possível pelo cão galgo de um dos sacerdotes (Alfredo Castro, ator recorrente de Larraín). E, talvez mais fundamental, a personalidade específica de cada religioso, determinante para um painel excêntrico de procedimentos em que o único menos explícito, e por isso mesmo misterioso e atemorizante, cabe a representante feminina, em desempenho admirável de Antonio Zegers, mulher do realizador.

Numa segunda apreciação, o filme se abre a muitas outras perspectivas, inclusive a política, na medida em que está em foco a autoridade, na face pesada do autoritarismo em sua pior conotação, e por consequência a ditadura de regime militar de que o Chile foi vítima por longo período.

Na conversa com CartaCapital e outros veículos no Festival de Berlim, Larraín procurou desviar desse enquadramento e mesmo situou que não houve intenção em colocar a Igreja na berlinda, ainda que se saiba do papel de colaboradora do governo de Pinochet, com exceções de praxe dos religiosos de esquerda. Acredita que a representação ali é mais ampla e diz respeito ao totalitarismo em várias formas no mundo atual.

Difícil, no entanto, afastar o olhar politizado sobre esses tabus de comportamento interno na Igreja, quando se tem a cinematografia como a dele voltada a reflexão a partir do golpe de 1973, com a trilogia formada por Tony Manero, Post Mortem e No. Mais ainda, quando se sabe que tais casas de reclusão existem pelo mundo, no Brasil inclusive, de que se valeu para o ponto de partida.

A tentativa de ampliar a questão é, claro, favorável ao contexto do filme e foi reiterada pelo ator Alejandro Goic, representante do filme aqui em Fortaleza. Além do diretor, melhor representante talvez não houvesse. Ex-militante marxista, Goic tem um tio religioso de mesmo nome e sobrenome que investiga casos de pedofilia na Igreja chilena. Ótimo no papel do tipo mais revoltado e cínico com a condição de recluso e obrigado a acatar ordens do investigador, ele ressaltou a crítica a corrupção do poder em geral.

São questões a se levar em conta, mas onde o filme realmente se firma são nas nuanças, nas contradições e intenções mais profundas do caráter e da personalidade dos religiosos, que não acreditam verdadeiramente infringir alguma lei seja moral, dos homens, e muito menos de deus. Nesse flagrante,o filme já soturno ganha contornos de um pesadelo de terror.

Corajosa, portanto, a escolha de O Clube, para uma noite de platéia menos afeita a desafios que festivais com curadoria mais elaborada propõem. Poderia se supor simpático iniciar com Loreak, o segundo longa de língua espanhola exibido na noite de ontem. Melhor no caso dizer de língua euskara, o idioma do País Basco que se fala na totalidade do filme dos diretores Jon Garaño e José Mari Goenaga.

A raridade de se conhecer uma ficção dessa cultura que sabemos separatista e convicta de suas diferenças em relação a Espanha a ponto de contar com uma organização dita terrorista não é no entanto seu único atrativo. Ainda que se possa apontar certa reiteração e extensão excessiva do drama, é bem desenvolvida a história em torno da mulher casada que passa a receber flores -- loreak na língua -- toda semana de um anônimo.

Um acidente leva ela a saber se tratar de um colega de trabalho, também casado, e a aproximar-se da família dele. O terceiro vértice é a outra esposa, que passará em certo momento a ação protagonista. É um filme de símbolos e aspectos culturais bem explorados, não só as flores como a questão de um hábito existente relacionado a morte e estudo de cadáveres e o cenário quase sempre interno que nada mostra a famosa beleza da cidade de San Sebastían, onde se dá o tradicional festival de cinema. Evento este que convidou pela primeira vez um filme local falado em euskara para a competição, conforme revelou a simpaticíssima atriz Itziar Ituño no debate.

Refazendo a curva para um cinema mais autoral e exigente vimos Jauja, em que Lisandro Alonso retoma seu costumeiro embate entre civilização e não civilização, protagonistas fora de eixo e de lugar, paisagens tão hostis e belas como desafiadoras e talvez invencíveis. Essa última condição seria o objeto de uma masterclass de Alonso ao lado do diretor pernambucano Marcelo Gomes.

Alonso, no entanto, é pouco afeito a explicar seu cinema e opções, e nesses casos melhor mesmo fechar questão no filme, em que num passado mais mitológico e fantástico que propriamente histórico o explorador militar interpretado por Viggo Mortensen tem sua filha adolescente raptada por rebeldes e sai em seu encalço.

O filme, como sempre no caso de Alonso, é de um rigor formal absoluto, com belo enquadramento na janela de super-8, fotografia propositadamente artificial e de cores fortes, fazendo lembrar mais a pintura do século de ouro espanhol do que alguma referência cinematográfica, de que aliás o diretor se diz distante.

Cita Aki Kaurismaki e seu fotógrafo como alguma influência, diz não ter pensado no western ou o cinema épico,menos ainda conhecer Rastros de Ódio, de John Ford, a que o filme se aproxima em trama. Enfim, o filme está na tela, o recado que nos dá. Melhor então que seja um belo filme.