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Seda em sangue

por Rosane Pavam publicado 19/01/2011 10h42, última modificação 19/01/2011 12h36
No vestuário está inscrita nossa consciência histórica. A História do Vestuário no Ocidente de François Boucher

No vestuário está inscrita nossa consciência histórica. A História  do Vestuário no Ocidente de François Boucher
A futilidade tem indústria e, principalmente, história. Mas a moda, que sugere a existência obrigatória do enfeite, não é fútil. Mais se parece com um espelho ou uma couraça em meio aos quais nos escondemos.
Um livro sério como História do Vestuário no Ocidente não falará obrigatoriamente sobre moda, que é o vestuário metido em função social. A pesquisa analisará, isto sim, os fatos envolvidos na obrigatoriedade de se vestir adequadamente desde a pré-história. E nesta primeira época, como se sabe, a moda ainda não era uma obrigação, não exigia a presença de máquinas de costura, nem mesmo de vitrines para atrair consumo.
Nessa publicação com mais de mil ilustrações e um texto que beira a densidade, apesar das tradicionais e insuficientes fontes a cercar essa área de estudo, sabemos que o vestuário não é apenas questão parnasiana de gosto, mas resultado de circunstâncias concretas e terrenas, ligadas ao concerto de poder entre os impérios.
As nações europeias, dominadoras em excesso, empreenderam esforços, por exemplo, para traduzir industrialmente a riqueza oriental. Os bordados são louvados hoje em dia por revistas e blogs informativos. Mas eles se esquecem de realçar que essa beleza foi construída com o sangue dos outros.
No capítulo referente ao século XVIII, está escrito que nos anos 1600 a cultura algodoeira espalhou-se pelas colônias americanas. Em 1763, aportou em Londres o primeiro algodão da Carolina do Sul, três anos após o inglês Horace Walpole (1717-1797) informar que 45 mil escravos negros eram vendidos anualmente às fazendas inglesas do Novo Mundo. “Assim, quando os agricultores coloniais compravam as ramagens de Manchester ou da Normandia para vestir seus escravos, era precisamente essa mão de obra da África que lhes permitia alimentar a indústria algodoeira em plena expansão da Inglaterra e da França.”
 Ninguém vai deixar de seguir uma tendência de vestuário apenas por conhecer o que precedeu uma fantasia veneziana ou uma saia de linho pintada a mão. O livro não anula a beleza do que vestimos. Ele afina a consciência histórica, que pode ser evocada mesmo diante do vestido mais simples.