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Crônica do Villas

Se oriente, rapaz!

por Alberto Villas publicado 16/07/2015 12h06, última modificação 16/07/2015 12h06
Desconfio que os guias de viagem também estão com os dias contados
Guia de Viagem

Meus guias foram todos pra reciclagem. Só sobrou o pequeno guia de conversação, em japonês

Nos anos 60, quando eu era ainda menino de calças curtas, as estradas eram de terra, os carros não tinham cinto de segurança,  era raro ver uma mulher dirigindo um automóvel e o Vigilante Rodoviário fazia sucesso na televisão. E o meu pai, antes de viajar, fazia questão de estudar detalhadamente aqueles mapas que vinham encartados, todo mês, na revista Quatro Rodas.

Eram mapas preciosos. Os repórteres da revista faziam o percurso inteiro, anotando passo a passo, tudo que viam entre uma cidade e outra. Era observando esses mapas que o meu pai calculava onde encheria o tanque da Rural Willys, onde comeríamos aquele PF com uma coxa de frango, macarrão, arroz e feijão e onde se localizavam as borracharias, caso a câmara de ar do pneu Goodyear estourasse.

Guia, era coisa rara, ninguém tinha. Saíamos viajando sem reservar hotel, sem saber quais eram os restaurantes bacanas da cidade, onde iríamos nos divertir, nada disso. Seguíamos meio sem lenço, sem documento, caminhando contra o vento no sol de quase dezembro. Pegávamos a estrada apenas com aqueles mapas da Quatro Rodas no colo do meu irmão mais velho, o co-piloto, tão organizado quanto o meu pai.

Ai vieram os guias! Sempre fui fã, obcecado por guias, desde que sai do Brasil pela primeira vez, no inicio dos anos 70. Cheguei na Europa e fiquei abismado como os turistas se orientavam pelos guias. A gente, naquela época, não ficava chocado, ficava abismado.

Andávamos pelas ruas e, a cada esquina, tinha um turista meio perdido com um mapa aberto, procurando alguma rua, algum museu, alguma igreja. Eram daqueles mapas enormes que a gente desdobrava e depois nunca mais conseguia dobrar novamente, da maneira correta.

Gostava de observar, nas mãos dos turistas, as capas dos guias para saber de onde eles vinham. Quando via escrito Londra ou Parigi, sabia que eram italianos. Quando via na capa do guia,  ΛΟΝΔΙΝΟ ou ΠΑΡΙΣΙ, só podiam ser gregos.  

Nunca me esqueço daqueles turistas que iam apenas conferindo tudo. Um olho no guia, outro no monumento pra checar. Olhava no guia, olhava pro Big Ben, conferia e exclamava:

- Voilà le Big Ben! C’est ça! Il est bien là!

Quando descobri os guias, nunca mais viajei sem um. No avião, já ia lendo, página por página, anotando o que tinha pra ver, onde ir, onde comer. Mas, confesso, hotel nunca me orientei por guia. Sempre foram caros demais pro meu dinheiro curto, de estudante.

Depois dos guias da cidade, vieram os temáticos: Barcelona com Crianças, Londres de Bicicleta, Amsterdam à pé, Istambul Misteriosa. Desses, nunca fui fã.

Na minha casa, até ontem, tinha um móvel na sala com seis gavetas, três delas entupidas de guias. Resolvi botar tudo fora, esvaziar as gavetas.  

Até aquele do Vietnã, que comprei e nunca fui, foi pra reciclagem. Só de Cuba, tinham três, Tóquio dois, Abidjan também dois, um em francês e outro em inglês.

Do mesmo jeito que acabaram as missas em latim, as fichas de telefone e a Mirinda Morango, sinto que os guias também estão acabando, indo embora, estão com os dias contados.

Além dos tradicionais, eu tinha a mania de comprar aqueles pequenos, de conversação, crente que ia chegar em Berlim e perguntar em alemão:

- Wie spät ist es?

Isso, se quisesse saber que horas são, certo?

Crente que ia chegar a Roma e, na maior cara de pau, perguntar:

- Ho bisogno di telefonare in Brasile!

Caso quisesse falar com alguém cá no Brasil, é lógico.

 Até um guia de conversação em japonês eu comprei um dia. Pensava: Já imaginou eu, em Tóquio, puxando os olhinhos e dizendo:

- Uatachi ua nattsu cai areruguii des.

Isso se quisesse dizer que sou alérgico a nozes e crustáceos, não é mesmo?

Hoje só vejo turistas nas ruas conectados no celular, plugado no Trip Advisor, no Waze, no Uber, no Air BNB, no Four Square, no Google Maps. Guia de papel, quase ninguém

Enfim, os meus guias foram todos pra reciclagem.

Na limpeza das gavetas, só sobrou aquele pequeno guia de conversação, em japonês. Sei lá, vai que um dia, lá em Kyoto, me bate aquela vontade de tomar um cafezinho quente, não é mesmo? Ai é só pegar o danado, abrir na página 59 e falar de peito cheio:

- Coorrii ippai daque onegai chimas!