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Crônica do Villas

Se meu Lada falasse...

por Alberto Villas publicado 13/11/2014 10h35
A incrível aventura de comprar um carro russo, assim no impulso
Lada Niva

Um Niva, da Lada

No final do século passado, depois de quatro décadas sem saber sequer ligar um automóvel, eu cismei que queria tirar carta de motorista. E para incentivar esse desejo meio maluco, só tinha uma saída: Comprar um carro! Comprando o carro, eu seria obrigado a tirar a tal carta de motorista.

A fim de abrir o mercado para a importação de automóveis, o presidente Fernando Collor foi na televisão e xingou nossos carros de carroças. Olhando assim, de cima a baixo, aquela Brasília amarela, aquele Corcel 73 e aquele Fuscão preto, eram mesmo umas verdadeiras carroças.

O mercado foi aberto e o primeiro importado a chegar ao Brasil foi um tal de Lada. Confesso que quando vi o primeiro, um modelo Niva, ali desfilando pela Avenida Sumaré, foi amor à primeira vista.

Minha mulher me olhou meio enviesado, achou que era maluquice pura comprar aquele jipão russo que, até então, nunca tínhamos ouvido falar.

Cabeça dura, passei a mão num punhado de dólares que tínhamos guardado em casa e lá fomos nós comprar o tal Lada. Eu gostava do vermelho, mas só tinha disponível um azul calcinha e foi esse mesmo que levamos.

Não foi fácil. O carro era tão duro que a minha mulher precisou usar as duas mãos pra engatar a marcha e sairmos dali. Ela, que não é muito de reclamar, foi resmungando até chegarmos em casa e, depois de muita dificuldade, encaixar aquele monstrengo na nossa garagem.

Só no lar, doce lar, com mais calma, fomos estudar que carro era aquele que tínhamos comprado. Desci até a garagem e busquei o manual de instruções. Subindo no elevador, levei um susto ao ver que estava tudo escrito em russo. Pelas letras estranhas, deduzi que era russo mesmo.

O problema maior é que ainda não havia o Google pra traduzir, mais ou menos, o que significava aquilo que acabamos de comprar. Mas, no verso, tinha um papelzinho colado, escrito em português: “Motor dianteiro, longitudinal, 4 tempos, pistões alternativos, ignição por centelha, injeção eletrônica monoponto sincronizada, arrefecido a água com monopropileno glicol. Resumindo: Pra mim, se estivesse escrito em russo, dava na mesma.

Mas não nos demos por vencidos. O anúncio do Lada nas revistas mostravam um Mikhail Gorbachev sorridente e a pergunta: “Você compraria um carro deste homem?” Gorba estava em alta e eu respondi: Claro, já comprei!

E saímos desfilando pelas ruas de São Paulo com aquele carro vindo do frio, minha mulher ao volante fazendo musculatura ao passar as marchas e as pessoas passando, olhando meio assustadas.

Nossa primeira aventura e nossa primeira decepção com o novo possante, foi quando fomos, serelepes, buscar nossa filhinha na escola Grão de Chão e fazer uma surpresa pra ela com aquele carrão azul calcinha. Assim que ela saiu no portão de ferro e viu a mãe ao volante do Lada, a primeira coisa que perguntou foi:

- Onde é que vocês acharam esse carro?

Ficamos meio desapontados mas seguimos adiante. Uma semana depois, uma amiga nos liga dizendo que comprara um apartamento na Lapa por um preço camarada e que ainda havia uma última unidade à venda. Fizemos as contas, juntamos as economias daqui e dali, entramos no cheque especial mas ficou faltando um tanto, exatamente o valor que pagamos por aquela coisa russa.

Não pensamos duas vezes. Desisti de tirar a carta de motorista, vendemos o carro no dia seguinte, compramos o apartamento e não falamos mais nisso.

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