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Scott Joplin: limites e semelhanças

por Alexandre Freitas — publicado 04/05/2010 15h40, última modificação 20/09/2010 15h41
Publicidade mentirosa. É como o Le Monde classificou os anúncios da ópera Treemonisha de Scott Joplin, em cartaz no Théâtre du Châtelet em Paris.

Publicidade mentirosa. É como o Le Monde classificou os anúncios da ópera Treemonisha de Scott Joplin, em cartaz no Théâtre du Châtelet em Paris. A propaganda dizia que se tratava da primeira ópera estadunidense. Treemonisha é de 1911 e, segundo o mesmo jornal, em 1757, William Smith já havia composto Alfred. Erra feio o reputado teatro? Le monde ameniza a crítica inicial e justifica: levando-se em conta que a “verdadeira” música americana é aquela que carrega heranças dos índios nativos e dos negros, Treemonisha é, sim, a primeira ópera no país. Antes de Joplin, o que se fazia era música européia na “América”.

O crítico do Le Monde, apesar de uma primeira condenação ao anúncio publicitário, tenta entender as razões de tal propaganda. Tomando como verdadeira a posição do teatro, podemos entender que a música de concerto, ou clássica, para ser nativa tem de ser autêntica, diferente da musica do colonizador. Assim sendo, se pensarmos na música clássica brasileira, por exemplo, esta só teria surgido no final do século XIX e tudo que veio antes era música européia, mesmo se produzida em solos tupiniquins. Aplica-se então algo como o “direito de sangue”, que se contrapõe ao chamado “direito de solo”. É como se a música européia se mantivesse intacta em sua repatriação. Enquanto no Novo Mundo é o direito de solo que prevalece, no Velho Mundo a ascendência ainda tem lugar privilegiado. De qualquer maneira, não me parece apropriado reivindicar um pioneirismo na ópera de Joplin.

Tremonisha, primeira ópera estadunidense ou não, nos leva à realidade dos negros do Arkansas recém libertados. A obra, com ressonâncias autobiográficas, propaga ideais feministas - “Os homens me escutarão, mesmo eu sendo mulher? Sim, escutaremos”. - e uma moral que rejeita superstições e feitiçarias. Interessante observar que a condenação às superstições vem justamente de uma líder que foi encontrada por milagre debaixo de uma grande árvore sagrada.

Scott Joplin ficou conhecido pelos seus ragtimes, gênero musical do fim do século XIX e início do seguinte, de melodias sincopadas sobre uma base de marcha a dois tempos, bem regular. Não conhecia a música de Joplin, fora o The entertainer, que é uma das mais populares peças para piano (http://www.youtube.com/watch?v=fPmruHc4S9Q).

Em alguns momentos reconheci semelhanças musicais com Ernesto Nazareth, mesmo sendo bem distintos os sotaques. Certas fórmulas rítmicas, os acentos musicais, a flexibilidade do ritmo no interior de uma rigidez métrica, a posição do artista no limiar de gêneros clássicos e populares, tudo isso me fazia pensar no pianista carioca. Já havia ouvido falar desse possível paralelo e, em uma rápida pesquisa, alguns fatos curiosos emergem. Nazareth, segundo ele mesmo, havia tomado em toda sua vida oito lições de piano com um pianista francês chamado Charles Lucien Lambert. O célebre pianista era, na verdade, um estadunidense que saiu de Nova Orleans para viver no Rio de Janeiro e, segundo alguns pesquisadores, é o elo entre a música dos dois compositores, juntamente com Jean Moreau Gottschalck, que também passou pelas duas cidades.

Na montagem de Tremonisha no Châtelet, não foi exatamente o aspecto inovador ou de autenticidade que me chamou a atenção, nem mesmo os recursos vocais dos solistas. Fiquei surpreso com a capacidade daquela música em comunicar, a facilidade com a qual a absorvemos e o envolvimento de cada um daqueles dançarinos e cantores que integravam o elenco. A estrela da noite era Grace Bumbry, que, aos 73 anos, interpretou a mãe de Treemonisha.

Dirigidos musicalmente por Kazem Abdullah e cenicamente por Blanca Li, alguns trechos dessa montagem estão disponíveis no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=RLAlVyDyTbc).