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Crônica

Saiba onde os famosos vão passar o carnaval

por Alberto Villas publicado 13/02/2014 11h38, última modificação 13/02/2014 11h43
A tarefa de toda semana ter uma ideia na cabeça com um teclado na mão não é fácil. Por Alberto Villas

Não é de hoje que escrevo crônicas. A primeira que foi publicada, me lembro bem, foi no jornal Versus, lá do início dos anos 1970. Era uma crônica sobre os muros grafitados de Barcelona, cidade que acabara de conhecer e estava maravilhado, de joelhos. Depois vieram muitas outras. Nos anos 1980, foi no Caderno 2 do Estadão que publicava minhas crônicas toda quarta-feira. Nos anos 1990, passei a publicar no site do programa Fantástico da Rede Globo. Quer dizer, tem décadas que toda semana tenho de ter uma ideia na cabeça com um teclado na mão.

O retorno sempre foi grande. Todo dia pipocam e-mails de leitores na minha caixa postal. Já conheço os fãs de carteirinha, aqueles que me acompanham desde que o mundo acabou. Tem os navegantes de primeira viagem que me descobriram aqui, tem os ranzinzas e tem os bem críticos. Nas últimas 109 semanas, toda sexta-feira, estou aqui ocupando esse cantinho no site da Carta Capital, o que me orgulha muito.

Já falei de tudo por aqui. Da sapa que não podia colocar os pés na água ao urso panda que há décadas está para acabar. Falei do meu tio João, da minha tia Lili, de Paris, de Budapeste, de Berlim. Já falei da minha mania de bisbilhotar conversas dos outros, da minha coleção de revistas Intervalo, das cartas de Caio F, da minha dificuldade - míope que sou - de enxergar o que é xampu e o que é condicionador no box do banheiro.

Já falei do taxista que acredita que o saldo dele é o que está escrito no extrato "disponível para saque", do meu América Mineiro, das manias de gente velha que começo a ter, das minhas poesias juvenis, dos chinelos de Zélia Gattai e do sonho do guardador de carros Bigode de encontrar um dia a sua amada Sueli. Já falei do medo que tinha de tomar leite e comer manga, da nódoa que manchava o uniforme escolar e já falei também das coisas que sumiram do mapa. A fralda de pano, a ficha do telefone, o Crush, o Vigilante Rodoviário na TV, o mimeografo a álcool, o catálogo telefônico, o drops Dulcora, o elefantinho da Shell e a gotinha da Esso.

De vez em quando recebo um e-mail raivoso de gente que quer que eu escreva sobre política e economia. Não é o meu barato, apesar de estar sempre girando a metralhadora no Facebook contra ultradireitistas, reacionários, homofóbicos, essa gente que vive mandando você adotar um bandido, mudar-se pra Cuba ou lembrando, até hoje, dos tais dólares na cueca. Essa semana mesmo recebi um e-mail do Oscar de Oliveira, lá de Curitiba. Ele diz, raivoso: "Na semana em que uma cubana se rebelou-se contra o fracassado programa Mais Médicos, você vem falar de diarista?" E completou: "Por que você não fala do Zé Dirceu na cadeia ao invés de ficar falando de dieta para engordar da revista O Cruzeiro dos anos 50?"

Teve um que disse que sou um privilegiado por comer geleia no café da manhã, "num país onde milhões passam fome". Outro ficou horrorizado porque eu não acredito em Duendes e um terceiro me acusou de explorar a faxineira Edna, obrigando-a a trabalhar 13 horas por dia. Pois é, achei deselegante colocar na crônica que pagava hora-extra a ela, numa época em que as empregadas não tinham férias, décimo-terceiro, INSS e nunca sonhavam em viajar de avião.

Fico aqui matutando com os meus botões. Será que deveria estar falando dos Black Blocs, dos rolezinhos nos shoppings, do Feliciano, do "mensalão", do Produto Interno Bruto, da mídia Ninja, do beijo gay na televisão, da inflação, das manifestações nas ruas, do Mais Médicos, da morte do cinegrafista da Band ou da reacionária apresentadora do SBT?

Hoje resolvi fazer um teste. Desliguei o computador e pensei. Vou ligar novamente e quando abrir na página do UOL, vou fechar os olhos e colocar o dedo indicador na tela. O assunto que ele estiver apontando vai ser o meu assunto da semana aqui neste espaço.

Desliguei o computador, liguei novamente, esperei alguns segundos e quando vi a luminosidade vindo, fechei os olhos e coloquei o dedo em cima. Quando abri os olhos, o meu dedo estava apontando para a  manchete:

"Saiba onde os famosos vão passar o carnaval"