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Rua das casas, número das portas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 21/07/2010 15h24, última modificação 21/07/2010 15h24
Além da Copa, bar no Rio preocupa-se com os nomes das vielas em que moramos

Além da Copa, bar no Rio preocupa-se com os nomes das vielas em que moramos

 O endereço que dá título a esta página foi dito pela boneca Emília, maravilhosa criação de Monteiro Lobato, numa de suas muitas respostas malcriadas. A lembrança ocorreu porque o Lebronx, bar e restaurante do Leblon, forra suas mesas com toalhas de papel que vêm com a referência das principais ruas do bairro. Nas descartáveis, os nomes dos logradouros são explicados, seja por sua origem indígena, seja por uma rápida biografia (talvez não autorizada), de notáveis que os batizam.
A ideia não é inovadora, mas é útil entre um hambúrguer e uma saladinha. A maioria de nós, que não mora na rua da Paz, praça Inhangá ou numa rua alfanumérica, nem se lembra de perguntar quem foi e o que fizeram aqueles que vêm a ser nossos endereços. Seus nomes nos soam familiares, porque os repetimos automaticamente. Talvez por isso Emília tenha se revoltado na resposta que confirma a personalidade “cabelinho nas ventas” da boneca, conhecida por não levar desaforo para casa nem para o número de sua porta, mesmo morando no Sítio do Picapau Amarelo.

A Aperana, rua sem saída na parte baixa do Alto Leblon significa “caminho falso”, em Tupi. Faz sentido, se pensarmos na ideia de um beco. A mesma origem indígena tem a vizinha Igarapava, um “lugar para a canoa ancorar”. A rua tinha um portinho onde os índios que habitavam a restinga, em que se instalou o bairro, hoje o mais valorizado do Rio, atracavam suas embarcações, com lotação para até 40 passageiros, feitas de troncos ocos.
O cais ficava entre a Igarapava e a atual Visconde de Albuquerque. Pelas barbas desse nobre ainda passa o que se transformou num dos canais mais imundos da cidade. Nele desemboca diuturnamente esgoto a céu aberto, vindo dos apês bacanas da área, que segue para a praia do Leblon.
A Conde de Bernadotte, point com barzinhos e teatros, próxima à Cobal, homenageia o diplomata sueco Folke Bernadotte, neto do príncipe da coroa sueca Jean Bernadotte. O conde também é aparentado com outras realezas longínquas no tempo e no espaço. E a boemia com isso?

Mesmo com este sobrenome, Rita Ludolf não vem do frio europeu, mas do minuano gaúcho. Para ver como as coisas não mudam em Botocúndia, a senhora virou rua por ser esposa do engenheiro José Ludolf. O “doutor”, que era diretor da empresa que abriu várias ruas no bairro, saiu distribuindo o nome de seus parentes pelos caminhos que inaugurava. Na Rita Ludolf, no final do Leblon, ainda há vestígios de arquitetura art déco, se procurados com lupa. (Em Ipanema, esse, digamos, nepotismo urbano chega a ser escandaloso e bairrista, cheio de baianidades.)
 O compositor finlandês Jean Sibelius, que batiza uma das praças mais engarrafadas do entroncamento Gávea-Leblon-Barra, é outro que vem de longe para virar logradouro em terras solares. Sibelius estudou com mestres da música na Áustria e na Alemanha. Depois de algum reconhecimento e por demonstrar uma veia “nacionalista”, seja lá o que isso quer dizer, recebeu em 1897 uma pensão vitalícia do governo finlandês. Os proventos lhe possibilitaram passar a vida toda em sua quinta, num lugar chamado Järvenpää. Ainda bem que não tiveram a ideia de botar esse nome, parente do fumegante vulcão da Islândia, em nenhuma rua da cidade. 
O político mineiro Delfim Moreira dá nome à avenida que antes, em Ipanema, se chama Vieira Souto, ambas o creme do creme, em frente ao mar. O ex-deputado foi eleito, em 1918, vice-presidente da República na chapa de Rodrigues Alves, que morreu antes da posse. Ataulpho de Paiva foi advogado e, em 1867, virou imortal, sem saber que batizaria a principal via de integração do bairro.
E Leblon? Bem, Leblon vem de Le Blond, francês que tinha uma chácara plantada à beira-mar.

Se cuida, Brasil!!!
Uma boa teoria conspiratória. Você acha, paciente leitor, que a Fifa vai deixar o Brasil ser hexa, na África do Sul, e hepta, na Copa daqui? Como ninguém admite que o Escrete repetirá o 16 de julho de 1950, é bom a CBF tirar seu cavalo da chuva. Quem sabe teria sido por isso que Dunga armou essa selexotan, como disse o Marcelo Madureira, ficando então o hexa adiado para 2014?