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Cultura

Crônica do Villas

Robôs

por Alberto Villas publicado 01/05/2015 06h28
Fui criado achando que um dia eles iriam tomar conta do mundo
Arquivo pessoal

Eu tinha uns sete anos de idade quando ganhei um robô da minha madrinha. Não me lembro se era um robô da Estrela ou se era importado da América do Norte. Minha madrinha morava no Rio de Janeiro, ia sempre a Nova York e quando voltava, trazia um big presente pra mim. 

O robô chegou do Rio pelas mãos do meu pai, que ia todo mês à Cidade Maravilhosa discutir meteorologia com os seus chefes. Aquela caixa enorme não coube na mala Ika do meu pai e veio como bagagem de mão mesmo, embrulhada para presente. 

Nunca fui de rasgar papel de presente, aquela aflição para ver logo o que tinha dentro. Fui descolando o durex bem devagar até chegar ao tal robô, que era um espetáculo. De fechar o comércio. 

Ele tinha uns quarenta centímetros de altura, olhos vermelhos que piscavam, braços que mexiam, pernas que andavam. Só faltava falar. Na verdade, ele falava uma língua estranha que não era português nem inglês, acho que era uma língua do outro mundo. 

As pilhas vieram dentro da caixa e foram logo instaladas nele. Em poucos minutos, aquele monstrengo estava andando pela casa, arranhando o assoalho brilhando da minha casa. 

Em poucos dias, o robô virou uma atração no meu bairro. Todos os meus amigos iam na minha casa para brincar com ele, para admirá-lo. Minha mãe bateu pé e não deixou que eu o levasse pro Colégio Marista para mostrar para os meus colegas de classe. Não teve jeito.

O futuro ainda estava longe e robô não era coisa para aqueles dias da década de 1950. Na televisão, ainda em preto e branco, eu babava ao ver a Rosie, a empregada robô dos Jetsons, que passava o dia andando pra lá e pra cá, espanando os móveis. 

O meu pai assustava a gente quando falava em robô. Dizia que, um dia, eles iriam substituir os trabalhadores, tirando o emprego de todo mundo. O velho costumava dizer: 

- Eles não faltam ao trabalho, não entram em greve, trabalham aos domingos e feriados, não precisam de férias, nem licença maternidade.

Fiquei perplexo, um dia, quando fomos ver Le Ballon Rouge no Cine Brasil e, antes do filme começar, exibiram um documentário sueco, onde robôs apertavam parafusos, colocavam pneus e até pintavam aqueles automóveis Volvo, numa fábrica em Gotemburgo.

O meu pai tinha razão. Aqueles malditos robôs iam mesmo tomar conta do mundo, lá no futuro. 

O meu, presente da minha madrinha, durou alguns anos, até que eu cresci e, como ele parou de piscar e andar, mesmo com pilhas novas, e eu resolvi abri-lo, ou melhor, esquartejá-lo.

Fui tirando peça por peça e quando vi aquele puzzle espalhado no chão do meu quarto, cabeça para um lado, pernas pro outro, percebi que nunca mais iria conseguir montá-lo. Juntei aquele monte de peças, aqueles pedaços de lata, coloquei tudo dentro da caixa e guardei. Com o tempo, ele desapareceu, como tudo tende desaparecer.

Lembrei agora desse robô porque o motorista do táxi que peguei na Oscar Freire disse, no meio do caminho, ouvindo a CBN, que “jornalista hoje parece robô”. Ele não sabia que eu era jornalista nem que um dia tive um robô que nunca me saiu da memória. Ele nunca poderia imaginar que hoje, robô na minha vida, é apenas uma pequena coleção que fica ali numa estante da minha casa. E como dói.

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