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Rir à força

por Rosane Pavam publicado 15/08/2008 15h34, última modificação 16/09/2010 15h38
Em um sábado no qual a festa de dia dos pais se antecipava, tive acesso à tevê aberta e sua programação. Os sábados à tarde, eu soube, são de Luciano Huck. É um rapaz que sofre da própria rapacidade. Um dia deixará de ser jovem. Mas alguma coisa em sua conformação física me diz que este horror tardará, e que a juventude o perseguirá feito o caminhão que apertava Dennis Weaver na estrada de Encurralado.

Em um sábado no qual a festa de dia dos pais se antecipava, tive acesso à tevê aberta e sua programação. Os sábados à tarde, eu soube, são de Luciano Huck. É um rapaz que sofre da própria rapacidade. Um dia deixará de ser jovem. Mas alguma coisa em sua conformação física me diz que este horror tardará, e que a juventude o perseguirá feito o caminhão que apertava Dennis Weaver na estrada de Encurralado.

Lembro-me que Huck escrevera uma carta lamentando o roubo de seu rolex numa esquina perigosa de São Paulo. Não retive todo o conteúdo da missiva, perdão. Sei que era chorosa. Me recordo apenas disto: nela, o apresentador visualizava a própria morte. Mais do que a morte, os funerais. Muitas pessoas, além da família, chorariam por ele caso o roubo do relógio resultasse em morte da vítima. Quem agia contra sua pessoa não pensava neste pormenor.

Não entendo muito de Huck, embora tenha trabalhado a seu lado em uma redação do Jornal da Tarde na qual ele produzia uma seção sobre a gente rica paulistana. Equivale a dizer: meninas bonitas. Todo mundo prestava atenção na coluna, ainda que fosse em preto e branco. Seria pelas meninas? Não consigo me lembrar do que se escrevia por lá. Talvez as notas se distinguissem ao contestar o colunato social vigente, ardoroso por pedir emprestado para si a respeitabilidade da política. Mas não posso garantir este ponto.

Quero dizer que nada, nada mesmo, tenho contra o Huck. Ele cumprimentava todo jornalista que via, o que, juro, não é hábito consagrado em uma redação. Um dia, contaram-me que ele declarou a um companheiro escriba que seu sonho era ser Elio Gaspari quando crescesse. Seu interlocutor bem-humorado pediu-lhe “menos”.

Jornalistas são o que são, breves. Não vale a pena ser jornalista, Huck deve ter concluído a certa altura de sua vida. O fato é que ele parece muito mais animado agora que é apresentador. Ele se esfola e se diverte em um programa, ou algo que leva o nome disto, por ele comandado na Rede Globo de Televisão.

O problema não é que Luciano Huck se divirta, mas à custa de quem faça isto. Vão me matar, porque as pessoas continuam a adorar Huck como adoravam as meninas de sua coluna nos idos de 1993. As pessoas assistem ao programa dos sábados, riem muito das pegadinhas contra os pobres e não se constrangem. Um espectador de Huck me disse naquela véspera do dia dos pais que algum dinheiro recolhido no programa vai para ongs. As ongs como um princípio de bondade, veja só.

E naquela edição do programa, classificada como olímpica, havia tantas imbecilidades perpetradas por atores contratados que eu talvez sentisse vergonha em receber o dinheiro advindo de tais performances. Uns caras com capacete apostavam corrida numa piscina de plástico. Risos. E os atletas brasileiros que fizeram bonito no passado colocavam-se prestes a cometer deslizes num jogo de grafia. Risos mais.

“Minha filha é boa aluna, perdoe, filha, se o papai errar tudo”, disse mais ou menos Tande, jogador-símbolo de um bom time de vôlei, durante a transmissão. “Minha professorinha dona fulana vai ficar muito chateada com meu erro”, considerou Robson Caetano, incrédulo sorridente numa cabine à prova de som. Hortência abaixava a cabeça e levava os braços para cima, como nunca fizera nas quadras de basquete, ao acabar de soletrar corretamente uma palavra do nível de, digamos, “fundamental”.

Que quer dizer isso de vexar em público glórias nacionais como Tande ou Caetano? Um é presumivelmente inculto, outro, de origem negra. Eles são o que o Brasil é. Hortência como exceção não vale, porque, no jogo, só acertou palavras muito fáceis. Caetano corre rápido demais para dizer como se soletra “organização”, pula o cê cedilha e faz cara de culpado. Tande diz que atrasado se escreve com z. É de perguntar: e daí? Risos, risos.

Eu me pergunto como podem as pessoas não se sentirem constrangidas diante de um programa como este, que tira proveito da ignorância alheia, como se Huck ou o professor de português ali presentes fossem sumidades aptas a julgar o próximo. Isto sem contar o sujeito de Natal que passou por uma cabine pública, atendeu ao telefone e teve de dizer a um passante que era gay e, além disso, pedir-lhe que informasse essa condição sexual a seu pai, tudo para ser premiado por Huck. Não levou o prêmio de cinco mil reais, que deixaria sua vida ajeitadinha, porque denunciou no ouvido do passante que era Huck quem o constrangia.

Que importa que todo o dinheiro recolhido com estas tolices supostamente vá para alguma ong? Huck ganhará muito mais. Huck não faz favores. A troca que promove com o público é injusta. Ele se beneficiará da humilhação exponencialmente. Vão dizer que é melhor que faça isto, dar um dinheirinho que não é seu a alguém que sofre, do que nada. Prefiro nada.