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Refogado

Retratos saborosos

por Marcio Alemão publicado 07/04/2013 09h25, última modificação 06/06/2015 18h56
Quando chefs e pequenos produtores se unem para aprimorar matérias-primas, o resultado pode ser delicioso
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Com Chicão e sua esposa, Rosinha, Alex Atala produziu um miniarroz de textura macia, um puro para se comer de colherada. Ilustração: Ricardo Papp

Retratos do gosto. Quem já ouviu falar? É uma marca e um movimento. Chefs unem-se a produtores, pequenos, e começam a assuntar como melhorar alguns produtos. Por exemplo, um miniarroz foi o que o chef Alex Atala conseguiu produzir com Chicão e sua esposa, Rosinha Ruzene, que lidam com isso há tempos, em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. Por sinal, é bonito ver as plantações de arroz nas várzeas do Vale.

Tinha em minha cabeça uma história que confirmei na internet: foi coisa dos monges trapistas o início do aproveitamento das várzeas para o cultivo do arroz. Sobre os trapistas também mais uma curiosidade: são bons de cerveja. Uma das melhores do mundo, em minha modesta opinião, é a belga Chimay. Não sei até que ponto os monges ainda se envolvem na fabricação, considerando que a Chimay ganhou o mundo. Há muitos anos escrevi por aqui que a espuma dessa cerveja era capaz de sustentar um bebê prematuro.

Sobre o arroz míni e o movimento Retratos do Gosto. O arroz é muito bom. Não concordei com a descrição de “leve aroma floral” que está na embalagem. Na minha boca ele veio com um pouco de fumaça, um defumado muito, muito delicado, quase um tabaco com madeira. Sua textura é mais macia que a do arroz vulgar, mas seus pequenos grãos parecem trazer mais diversão à boca.

Também outra coisa que não bateu: a instrução sugere dois copos e meio de água para cada copo de arroz. Fiz desse jeito e empapou. Fiz com duas medidas apenas e deu certinho. Um puro, pra se comer de colherada com bom azeite.

Fazer o quê? Eu gosto disso. E já que comecei vou adiante: adoro assaltar a geladeira na madrugada e pegar um naco de arroz. Odeio, confesso, ter de escovar os dentes depois.

Além do puro teve um com camarão. Camarão fresco, rosa, com azeite e alho. Sobrou e eu imaginei que bolinho espetacular ele daria. Pena que ficou na casa de minha filha. Comentei com ela no dia seguinte, mas já era tarde demais.

Dizem que o Alex não ganha nada com isso. Mentira. Ganha um arroz sensacional para trabalhar. E, sem brincar, entendam como funciona Retratos do Gosto: o produtor recebe apoio financeiro para desenvolver a ideia que um chef pode ter sugerido: um milho especial e derivados são outros exemplos que têm a parceira da chef Heloísa Bacellar com Diego Badaró. Um feijão que eu ainda não provei teve a “curadoria” de Helena Rizzo e Daniel Redondo.

As comunidades envolvidas na produção estarão sempre auxiliadas por ações sociais necessárias. Se der lucro, 25% voltam para o produtor, que também terá recebido, durante o processo, uma justa remuneração pelo trabalho. Em breve teremos também um embutido de carne de queixada, o porco selvagem, preparado pelo chef André Mifano. A empresa por trás da ideia é a MIE, que também produz os iogurtes Delicari. Para os poucos privilegiados que leem o Refogado ao longo de 11 anos, esse assunto é antigo. Incentivar o pequeno produtor é a melhor maneira de melhorar a qualidade de nossas matérias-primas.

O que ainda falta é encontrar um preço mais justo. Ainda são produtos muito caros. Que jamais chegarão ao preço dos primos do dia a dia, sabemos. Aliás, é bem provável que comecem a surgir, como os enochatos, os agrochatos que vão sentir aroma de baunilha e frutas maduras em feijão e farinha de milho com retrogosto marcante. Fiz exatamente isso linhas acima.

Que venham, pois isso significará que Retratos do Gosto prospera e que mais e melhores produtos estarão à disposição.

E mais uma profecia: chegará o dia que ouviremos comentário semelhante a esse: “A Maria Eduarda é muito exibida. Fez um jantar para cem pessoas, sentadas, à francesa e só serviu arroz, feijão e farinha gourmet!”  E a amiga dirá: “Estão nadando em dinheiro!”.