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Cultura

Carta de Portugal

Regresso à escola

por Eduarda Freitas — publicado 07/09/2010 10h40, última modificação 07/09/2010 18h36
Eduarda Freitas: "Era o cheiro. E as mãos pintadas de muitos lápis. Setembro era o mês dos regressos. Das tardes mornas e do caminho cor de terra"
Nas recordações da volta às aulas

Nas recordações da volta às aulas, os cheiros, as lições e a beleza de uma fase da vida. Foto: Simão Martinho

Era o cheiro. E as mãos pintadas de muitos lápis. Setembro era o mês dos regressos. Das tardes mornas e do caminho cor de terra molhado com as primeiras chuvas. Setembro era a voz da professora e a tabuada por decorar. Era a primeira página de um livro que nem sabíamos ler. A escola era pequenina. Como éramos todos na altura. Tinha duas salas e um chão de madeira que rangia aos passos. O recreio tinha o cheiro da chuva, das quase castanhas e do pão nas mochilas. Às vezes, eu esquecia-me de comer o pão. E depois em casa, esquecia-me de dizer à minha mãe que não tinha comido o pão. E ainda depois, esquecia-me que me tinha esquecido, e guardava dois ou três pães já duros sem saber o que lhes fazer, como fazer para que a minha mãe não percebesse que a geleia tinha acabado os dias entre pães e guardanapos, a caminho do lixo. A escola trazia vontades infinitas de livros e de os encadernar. Primeiro com papel às flores, mais tarde em plástico com corações verdes. E depois às riscas amarelas. O regresso à escola trazia uma dor para os lados da barriga que durava mais ao menos uma semana e que não se conseguia definir muito bem o sítio onde começava, onde acabava e como acabava. Trazia também a ansiedade de ir à livraria pegar nos livros novos, que ainda não eram chamados de manuais, e quantos mais eram, maior eu era também. E a escola mais pequena. A minha escola chamava-se escola primária. Como se chamavam todas. Só no início da década de noventa, é que passaram a chamar-se escolas do primeiro ciclo do ensino básico. De básico, o ensino na minha escola, não tinha nada. Não era básico aprender a fazer tartarugas com cascas de nozes e patas em grão-de-bico, coladas em azulejos para dar à minha mãe, no dia dela. E a fazer rosas com pétalas de massa de pão. Era até bem difícil! A minha escola tinha ditados que eu decorava com vírgulas e pontos finais só porque me apetecia, palavras difíceis, cópias e redacções sobre as férias do verão, do Natal, do Carnaval e da Páscoa. Tinha uma régua de madeira que trabalhava muito e aquecia as mãos e molhava os olhos. Tinha primeiros amores  - que não sabíamos ao certo que o eram -  nomes de rios, montanhas, reis e um mapa de Portugal Continental, Açores e Madeira pendurado na parede. Tinha também um quadro de lousa e um cheiro de giz branco, vermelho e verde. E um apagador que me fazia espirrar. Tinha duas casas de banho com cheiro a humidade e lixívia iguaizinhas a todas as casas de banho de todas as escolas do país, que também eram iguais entre si e que, aprendi mais tarde, foram construídas no tempo do Estado Novo. A minha escola era uma das sete mil.

Esta semana começam as aulas em Portugal. As escolas com menos de 20 alunos vão encerrar. Os meninos e as meninas vão passar a ter aulas em centros escolares onde têm acesso a computadores e a quadros sem giz. Em nome de uma maior socialização, vão deixar as velhas aldeias e conviver com muitos colegas e professores. E falar inglês. Na minha escola, falávamos português dos avós e éramos sempre os mesmos. Sempre nós. Tirávamos fotografias ao lado da professora: os mais pequenos à frente, os maiores atrás e os preferidos ao lado. Éramos os que saltávamos à corda, que andávamos à porrada, trocávamos cromos e íamos à catequese. E a professora tinha sempre a mesma voz, que era aguda, muito aguda.

Esta noite acordei a meio a pensar que as aulas estão quase a começar. Logo à tarde vou comprar papel às flores, encadernar os meus livros e dar um jeito à mochila que ainda serve para mais uns anos. Quando a professora chegar, vou estar sentada na primeira carteira, com vistas para o mapa de Portugal Continental, Açores e Madeira, com o lápis pronto a escrever uma redacção sobre as minhas férias de verão. Que foram grandes e cheias de coisas boas. E depois, vou deixa-la de boca aberta: vou escrever no quadro a tabuada do 7, do 8 e do 9! Só espero não ter que utilizar o apagador muitas vezes, porque deve ter muito pó. E o pó do giz faz-me espirrar. Está tudo perfeito, para o início do ano escolar! Não fosse esta dor mais ou menos para os lados da barriga e que já dura há mais ou menos uma semana e que nem sei muito bem defini-la…. A minha mãe diz que todos os anos tenho isto. Deve ser do tempo.