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Refém da fantasia

por Orlando Margarido — publicado 21/03/2011 08h54, última modificação 21/03/2011 18h54
"Vips" recria farsante com jogos de representação. O tema central do filme é o jogo da arte de representar, não a farsa detalhada. Por Orlando Margarido

Vips recria farsante com jogos de representação

Um apelo de Vips em sua estreia prevista para o dia 25 virá da possibilidade de conhecer a trajetória de Marcelo Nascimento da Rocha, que se fazia passar por quem não era (por exemplo, dizia ser um dos filhos do fundador da companhia aérea Gol). Mas o personagem real não interessa tanto ao diretor Toniko Melo. O tema central do filme é o jogo da arte de representar, embora, para desenvolvê-lo, o diretor tenha sido por demais explicativo e utilizado o formato reativo de ação e perseguição.

O admirável Wagner Moura interpreta quem atua, Marcelo. A essa construção soma-se o fato de o roteiro de Bráulio Mantovani e Thiago Dottori inventar dados na vida do protagonista, recurso justificado em razão de uma dramaticidade, já que depoimentos reais de Rocha, hoje preso, são confusos. O mais decisivo é a invenção de uma figura paterna, cuja ausência detonará o desejo que move a trama.

Como o pai, Marcelo sonha em ser piloto de avião e deixará a mãe (a ótima Gisele Froes), também uma criação como a cabeleireira amorosa mas inepta, para cumprir o destino de modo enviesado. Associa-se, a princípio, a contrabandistas e traficantes de drogas e torna-se o principal piloto do chefão da quadrilha. Apresenta-se no lugar de um dos herdeiros de Constantino e se favorece com regalias, como um helicóptero particular e festas em camarotes privativos. Um vip.

A passagem, verdadeira, acontece em um carnaval do Recife e foi testemunhada por um colunista social de tevê que se deixou levar pelo farsante e retoma seu posto no filme como um chiste. A exploração do feito de Marcelo nessa festa popular, durante a qual terá início seu desmascaramento, é tão mais curiosa por ser a própria festividade um momento de suspensão de identidades reais e invenção de outras. Ficasse apenas nessa sugestão, o filme ganharia algo além da narrativa convencional, mas exige que o círculo se feche sob a máscara de uma dúvida referente à paternidade de Marcelo.

Não são os únicos exageros perpetrados numa história que parece permitir liberdades em favor de um envolvimento cinematográfico. Deve ser o que empolgou o júri do Festival do Rio do ano passado a premiar Vips como melhor filme e a reconhecer seus intérpretes. O espectador intrigado com a personalidade do retratado pode mensurar melhor o universo de Marcelo com o documentário complementar de Mariana Caltabiano, baseado em seu próprio livro, Histórias Reais de um Mentiroso, ainda sem data prevista de estreia.