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Cultura

Crônica do Villas

Recuerdos

por Alberto Villas publicado 26/02/2015 10h20
Pena que, com o tempo, os presentinhos que ganhávamos dos filhos se autodestruíram

Quem tem filho, sabe muito bem o que é isso. Ainda mais quem tem quatro. Estou falando de quando eles crescem um pouquinho, vão pra escolinha e começam a trazer presentinhos pro papai e pra mamãe.

Quando eu era criança, comemorava-se tudo. Dia da árvore, dia do índio, dia da bandeira, era festa que não acabava mais. Nunca me esqueço de um dia do índio em que fui pro Colégio Marista com um cocar de penas enormes na cabeça, um verdadeiro Sioux.

No dia da bandeira, cantávamos enfileirados no pátio, o hino, que nunca me esqueci.

Salve lindo pendão da esperança!

Salve símbolo augusto da paz!

Tua nobre presença à lembrança

A grandeza da Pátria nos traz.

No dia da árvore, plantávamos mudas de pau-brasil na pracinha em frente ao colégio, plantinhas que, na verdade, nunca foram pra frente, nunca vingaram.

Nas escolinhas alternativas de hoje, a história é outra. Não tem muita comemoração não, mas o dia dos pais e o dia das mães não escapam.

Durante muitos anos, ganhamos quilos e mais quilos de presentes, os mais bizarros possíveis. Eu cheguei a reservar um gavetão aqui em casa para ir guardando esses presentinhos mas, com o tempo, eles foram descolando, se autodestruindo e acabaram um a um na lata do lixo. Meus filhos que não me ouçam.

Eram presentes inesquecíveis. Lembro-me bem, por exemplo, de um porta-retratos de isopor, todo pintado com ecoline, que mal ficava de pé. Mas eu até que estava bem na foto, cabeludo, camiseta manchada de água sanitária, tamanco e uma um bolsa a tiracolo. E aquele chaveiro de borracha cheio de pedacinhos de espelho e purpurina que chegou às minhas mãos já descolando?

Tinha de tudo. Cinzeiro de cerâmica, porta-velas de papel machê, moldura de papelão, sem contar os bonequinhos de massinha, inúmeros, cada um mais monstrinho que o outro. Juro que me emocionava quando acordava e encontrava no meu criado mudo esses recuerdos do dia dos pais, que vinham sempre acompanhados de bilhetinhos com um português ruim, mas que eu adorava.

“Ao melhor pai do mundo, um felis dia dos pai”

Com a mãe deles, era a mesma coisa. Nunca me esqueci de um pôster que ela ganhou no dia das mães, um verdadeiro retrato falado de uma das nossas filhinhas queridas. Nele, tinha a marca do pezinho feita com nanquim, as duas mãozinhas bem lá no canto, uma foto da família inteira reunida e um chumaço de cabelo loirinho, bem fininho, colado no meio do cartaz.

“Você é a mãe mais maravilhosa do planeta. Nunca ti esquecerei. Ti amo”.

O presente da mãe vinha sempre pipocado de coraçõezinhos vermelhos por todos os lados.

Pena que tudo foi se autodestruindo com o tempo, a cola era Tenaz e acabou ressecando e descolando, enfim, nada sobreviveu.

Ontem à noite, quando contei pra minha filha mais nova que ia escrever uma crônica sobre esses presentinhos, na hora era disparou:

- Lembra daquele porta-retratos de compensado, todo decorado com macarrão cru?

Sim, eu nunca me esqueci desse porta-retratos de compensado, pintado de azul piscina, mambembe, todo decorado com espaguete cru.