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Cultura

Crônica

Recomeçam os dias com sol preso à janela

por Eduarda Freitas — publicado 01/06/2011 11h40, última modificação 01/06/2011 11h40
Mas falar ao telefone era diferente. Era ausente e ao mesmo tempo real. Era saber que alguém do outro lado me ouvia, que era eu, mas sem rosto, sem forma, sem cores. Era eu a metros da casa da minha prima, mas para mim era eu do outro lado do mundo.

O primeiro telefone da casa, no Dia Mundial da Criança. Liguei à minha prima, que morava quase ao lado. Faço contas ao tempo. Somo recordações, acrescento universidades, cursos, filhos – os dela – e junto anos. Já passaram mais de vinte. O telefone tinha a roda que girava em volta dos números e que nos transportava para conversas ao fim do dia. Um dia que ainda minutos antes era de tarde e sabia a pão com manteiga comido no recreio da escola.

Mas falar ao telefone era diferente. Era ausente e ao mesmo tempo real. Era saber que alguém do outro lado me ouvia, que era eu, mas sem rosto, sem forma, sem cores. Era eu a metros da casa da minha prima, mas para mim era eu do outro lado do mundo, que nessa altura se chamava México. O México era o país mais distante dos meus pensamentos. Era eu de outra forma, com outros olhos que mudavam consoante a conversa, com outra cor de pele, que variava conforme os dias e era eu de cabelo em carapinha, o sonho de sempre.

Do Dia Mundial da Criança lembro-me de ter crescido. E lembro-me de um menino chamado Levi.

Um menino que nasceu no tempo em que eu já era grande. Demasiado. Cobria a reportagem para a televisão. À noite, em casa, escrevi:

O dia hoje começou pelo fim. Manhã cedo, o Levi foi a enterrar. Tinha 18 meses. Morreu afogado. Por causa da profissão que escolhi ter, tive que assistir ao funeral. Uma pequena urna branca fez-me voltar à infância e aos meus dois irmãos. Ninguém consegue parar as recordações. Eu, pelo menos, não. Do Levi não sei quem um dia se irá lembrar. No ano passado, o menino deu entrada no hospital de Chaves com um traumatismo craniano. A justiça não fez nada. A justiça não faz nada. Se calhar, daqui a muitos anos, o Levi não vai passar de uma mera recordação para quem conviveu com ele durante 18 meses. Não sei se estou a ser injusta com essas pessoas. Se calhar estou. Se calhar não. Gostava que se fizesse justiça com a memória do Levi. Eu faço a minha parte. Um dia, vou continuar a lembrar-me dele. E deste dia, Dia Mundial da Criança. (1º de Junho de 2005)

Hoje é de novo Dia Mundial da Criança.

Vou telefonar à minha prima e olhar para o céu.