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Crônica

Questões asininas

por Willian Vieira — publicado 04/04/2012 12h13, última modificação 06/06/2015 18h23
A possível exportação de jumentos do Nordeste brasileiro à China causa celeuma no Rio Grande Norte. "Mais pode o burro negar do que o filósofo provar"...
burros

A possível exportação de jumentos do Nordeste para a China causa celeuma no Ceará. Foto: Kudumomo/Flickr (Creative Commons)

Há cerca de um mês, a notícia de que o apocalíptico fim do jumento nordestino estaria próximo se espalhou pelo Rio Grande do Norte. Os chineses chegavam para levar os burros embora. Pior: os burros é que estavam prontos para deixar a terra natal e navegar até as mesas dos famintos chineses, já a salivar pela carne do bicho que fora um dia o símbolo do trabalho no Nordeste brasileiro. Explica-se: por enquanto, os burros não vão a lugar algum. Um mero protocolo de intenção foi assinado, no ano passado, entre a secretaria de agricultura do estado e uma empresa chinesa, para exportar 300 mil “unidades”. Mas foi só há poucos dias, quando o fato vazou, que a questão asinina passou a dividir a opinião da população potiguar, devolvendo ao jegue – então acostumado a ser apontado como problema e relegado, coitado, ao vácuo simbólico deixado pela mudança econômica – o status genuinamente nordestino.

De fato, quando os chineses buscaram no Nordeste uma fonte perene de carne asinina, o jegue já estava fora de moda. Com a venda de motocicletas em alta graças a macias prestações, a maioria das famílias que usava o bicho para transporte (de gente ou de carga) trocou a alfafa pela gasolina e montou na garupa da modernidade. Quatro patas não batem duas rodas, que não empacam e bem menos incomodam, diria o repentista. A moto não urra nem estaca (ao menos não por teimosia), não evacua no caminho nem fica doente – nada que não se possa consertar com graxa e jeitinho brasileiro. Menos sentimental que o jegue, cuja fama de bicho invocado rendeu ditados e xingamentos (seu burro!), na briga entre animal e máquina, a moto ganhou o páreo. E o jegue, pra variar, ficou pra trás, empacado no tempo.

Por que então não juntar o útil ao agradável, opinou a ala pragmática e capitalista do Rio Grande do Norte? Afinal, desde seu declínio como meio de transporte, acentuado nos últimos 15 anos, o jegue tem incomodado. Sobrevivente nas condições mais severas, justamente o que fez seu império no sertão nordestino assim como nos bíblicos desertos do Egito, o jegue, mesmo abandonado, sem comida ou bebida, comiseração ou afeto, resiste a vagar pelo nada, negando-se a morrer. Estudos arqueológicos sugerem que o Equus asinus, espécie domesticada originada no norte da África há milhares de anos, tinha lá seu valor. Não só as ossadas analisadas têm o típico arqueamento da coluna, como foram encontradas nas próprias tumbas dos faraós.

Mas hoje ninguém quer os teimosos. Nas feiras potiguares, os velhos jegues são vendidos por um real, muitas vezes para serem sacrificados e virarem mortadela sem exatamente um certificado de origem controlada. Quando escapam à sorte da faca, no afã do desespero da fome, invadem as roças e comem as poucas plantas que verdejam no sertão. Nômades do deserto, páreas excomungados, os jegues não só insistem em viver, mas teimam em procriar. Assim, filhotinhos de jegue aparecem displicentes nas fotos de quem passeia pelas estradas vicinais do grande sertão nordestino. Acidentes também se repetem: animais atropelados na escuridão noturna trazem morte aos dois lados do choque. Assim, a solução mais à mão é a que vale. Basta a cidade prosperar,  as motos gritarem nas ruas, e um jogo de gato e rato surge na calada da noite. Uma prefeitura manda encher um caminhão com jegues, que dormem em casa e acordam na cidade vizinha. À noite, são despejados na próxima. E assim por diante.

Bicho ruim, o jegue. Mas foi dessa ruindade que gerações de nordestinos viveram. Não era outro bicho a carregar no lombo moringas com água e sacos e gente, muita gente nascida e morrida na vida severina do sertão – senão o jegue. Eis o argumento da ala opositora à exportação, ciosa do valor histórico do bicho. No site Petição Pública, um abaixo-assinado contra a “carnificina” que a China, país que “não prima pelo bem estar de seus animais”, estaria prestes a impor diz: enquanto os jegues sempre foram os companheiros do Nordestino, “os verdadeiros asnos que causam acidentes muito mais graves são aqueles que usam ternos caros e exercem cargos públicos!”

Não é de hoje que o jegue é animal dado a polêmicas. Nos anos 60, quando a carne asinina nordestina passou a ser vendida para o exterior, um certo padre Antônio Vieira, de Várzea Alegre, Ceará, protestou. Homônimo do grande orador do século XVII e ferrenho defensor da dignidade do bicho, o padre foi um seminarista brilhante, estudou filosofia na Itália e nos Estados Unidos, até de descobrir como a lei divina dos homens poderia proteger as bestas. Em 1954, ao ler sobre o massacre mensal de mil jegues para pesquisas científicas, decidiu tomar partido desse bicho que, dizia, “é como a Santíssima Trindade ou como a penicilina. Faz tudo e mais um pouco.”

Vieira fundou o Clube Mundial dos Jumentos, que tinha Brigite Bardot como membro e dez mandamentos na linha socrática do “Só sei que nada sei”, sendo o primeiro “reconhecer a própria burrice”, o terceiro “evitar e empáfia de dialético” e o sexto “transmitir aos demais jumentos o que sabe”. Criou também o Museu do Jumento. Ministrou cursos sobre como tratar o animal – no final entregava um diploma em latim, assinado pelo asinus maximus (ele) e subscrito pela máxima: “Até ontem você foi um burro, mas a partir de hoje será um jumento”. E escreveu ainda um calhamaço de 1,2 mil páginas em quatro volumes intitulado O Jumento, Nosso Irmão.

Em Bom Dia Para Nascer, Otto Lara Rezende ironicamente elogia o trabalho do cearense. O padre Vieira português, jesuíta mais antigo, defendera os índios de então, tirando-lhes (em parte) da escravidão do trabalho para enfiá-los na escravidão do espírito. Mas hoje os índios estariam bem protegidos, escreveu Rezende. “Não está certo deixar o burro exposto à chacota geral.” Graças a Deus nasceu um segundo missionário. Pois quem mais protegeria o “perissodáctilo pacato e amigo do homem”, se não fosse o padre Vieira de Várzea Alegre, Ceará?

Nos anos 60, o padre dos burros foi eleito deputado federal e usou o próprio plenário para falar contra a matança dos jegues para exportação: tal comércio se encerrou à época. Pouco tempo depois, Vieira teve os diretos políticos suspensos pela ditadura – não por causa do posicionamento em prol dos asininos, espera-se.  Só nos anos 90, sua obra virou referência asinina internacional, quando uma ONG traduziu o primeiro volume do livro, publicado pela American Donkey and Mule Society como The Donkey, Our Brother. Quando morreu, em 2003, aos 83 anos, o padre Vieira de Várzea Alegre, Ceará, recebeu um obituário do jornal britânico The Telegraph, por ter “devotado quase cinquenta dos seus 60 anos de ministério a essas bestas”.

A herança vingou. O professor Sebastião Breguez analisou, em seu artigo, o “caso do jumento”. Após um apanhado das aparições asininas na Bíblia, como a passagem em Marcos na qual Jesus entra em Jerusalém num burrinho, ele avança na história e crava: “No Brasil, o jumento foi meio de transporte importante para o redescobrimento do país pelos bandeirantes, forçando Portugal e Espanha a romper com o Tratado de Tordesilhas. Também foi elemento importante para o fim da Escravatura, pois substituiu a força de trabalho escrava a partir de meados do século XIX.” E conclui: “O jumento é para o nordestino o mesmo que o camelo é para o árabe ou o beduíno do deserto. E foi salvo pela estratégia de comunicação usada pelo padre Vieira.”

Sem o padre, os asnos ficaram a mercê da fome chinesa, que devora um milhão e meio de jegues por ano. Não que se coma jegue na China como nós comemos galinha no Brasil. A carne é cara.  Mas é só entrar em um restaurante típico no centro de Pequim e olhar no cardápio com caracteres em mandarim e fotos dos pratos para perceber que as opções são muitas para não incluir algum animal estranho ao decoro ocidental.  Basta balançar as mãos sobre a cabeça como longas orelhas e urrar um pouco (!) para um prato fumegante de burro aparecer sobre a mesa. No melhor restaurante de pastéis cozidos de Pequim, a carne asinina é iguaria. O pior: pastel de burro é bom.

Tão bom que os chineses hão de insistir na saborosa parceria com os potiguares. Estatísticas pouco confiáveis estimam que a população asinina do Nordeste, que já foi de 17 milhões em 1964, seja hoje de um milhão. Ou seja: se a parceria vingar antes de a tal transferência de tecnologia chinesa aumentar a produtividade dos bichos potiguares, em menos de um ano os chineses comeriam todos os jegues nordestinos.

Afinal, “os jegues estão marchando na contramão da História”, afirmou Geraldo de Macedo, secretário de agricultura de Currais Novos (RN). Se consultado fosse sobre o destino dos bichos por quem tanto lutou, o padre Vieira (de Várzea Alegre, Ceará), de além-túmulo haveria de fazer sua a clássica frase latina: Plus potest negare asinus quam probare philosophus. “Mais pode o burro negar do que o filósofo provar.”

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