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Cultura

Carta de Portugal

Queria um sorriso assim

por Eduarda Freitas — publicado 24/02/2011 10h22, última modificação 24/02/2011 10h57
A partir da vivência com sua avó a colunista Eduarda Freitas faz uma crônica em homenagem a todos os velhinhos

Não sei onde herdaste esse sorriso. Não te conheci a mãe. Conheci-te sempre de sorriso rasgado e lágrima no canto do olho. Choravas quando eu ia de férias, 15 dias no verão, choravas quando eu ia à cidade, 10 minutos de tua casa. Choravas quando eu te dizia que ia a Lisboa - 5 horas da nossa casa - e ia para Moçambique (2 horas de carro e mais 10 de avião). Lembras-te? Estava em Ponta do Ouro, no cantinho de Moçambique, quando atendeste o telefone e eu tive que dizer alto - muito alto - estou em Lisboa! E os sorrisos enigmáticos dos moçambicanos ao lado.  Lisboa tinha morada certa na tua imaginação. Falavas-me do Saldanha e do Cavalo e da rotunda e dos carros que até então pouco tinhas visto. Eras menina, uns 15 anos, e Lisboa, tão longe...

Sempre te conheci a sorrir. Acho que nunca te chateaste comigo. Assumiste o papel de avó de corpo e alma. Davas-me panelas, arroz, massa e farinha para eu fazer bolos inventados, sorrias quando te sujava a cozinha, quando te pedia aventais para fazer vestidos de faz-de-conta. Aquecias-me os pés com as mãos, davas-me bolachas Maria com manteiga, contavas-me histórias mais ou menos bonitas. Não querias que eu te visse matar as galinhas, "porque tens
pena delas, e elas depois não morrem! Fogem sem cabeça!". Garantias-me. Não gostavas de raparigas que mostrassem o umbigo mas gostavas de tudo o que eu vestisse.

Dizias-me várias vezes que gostavas muito de me ver sorrir. E eu, na inquietude dos 15, 16 anos, encolhia os ombros, como se essas palavras fossem banais. (Por dentro estremecia, desarmavas-me com amor).
Dormiste comigo quando a minha irmã nasceu e viste-me chorar toda a noite porque a mãe não estava em casa para me dar o beijo de boa noite. E deste tu, tantos.

Compartilhamos uma gata que gosta tanto de ti e me morde a mim...  (Ela tem chorado tanto...)

Defendias-me quando eu não tinha razão e também quando tinha. E dizias que eu era airosa. Acendias a luz quando eu chegava a casa porque não gostava que estivesses às escuras. Tantas vezes ficaste no sofá à espera do tal sorriso que gostavas, mas eu nem sempre cumpri. Agora, nas notícias, todos os dias há velhinhos que aparecem mortos em casa.

Penso neles com carinho e sinto-me culpada. Porque eu também sou a sociedade. Somos todos. Olho-te e sinto uma menina com um sorriso escancarado para o mundo, lágrimas no canto dos olhos. Respiras com esforço. Olho para ti e apetece-me abraçar todas as avós do mundo.