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Cultura

Crônica do Menalton

Queremos chorume

por Menalton Braff publicado 14/10/2016 04h36
Os economistas afirmam que a quantidade de lixo de uma cidade é indicador de renda e de riqueza de seus cidadãos
Edilson Rodrigues/Agência Senado
Aterro sanitário

Alguém aí é contra a riqueza?

 Ou líquido percolado, que é produto de aterros sanitários. Os economistas afirmam que a quantidade de lixo de uma cidade, isto é, o peso diário per capita, é indicador de renda.

Portanto, quanto mais lixo produzido por cada habitante de uma cidade, maior é seu consumo médio, ou por outra, maior é a riqueza dos cidadãos dessa cidade. Notável meio de análise social.

Ora, em sendo assim, queremos mais lixo. É óbvio, depois da exposição acima, que mais lixo significa maior riqueza. Alguém aqui é contra a riqueza? Não? Ainda bem.

Eu, particularmente, apesar de pobre sou contra a pobreza. Não confundir com os pobres. Pelo contrário, me identifico com eles, não como certa primeira-dama recente, que afirmou ao vivo que os pobres só querem um abraço, que é disso que eles precisam. Se abraçados, já não têm mais do que reclamar, não é isso, Primeira-Dama?

Às vezes me ponho a olhar descuidado para a fauna que ocupa cargos públicos (ou quase) no Brasil e me dá vontade de fugir para Marte. Não vi, por isso não assino embaixo. Me contaram que um Ministro afirmou com todas as letras que pobre não precisa fazer curso superior. Claro, em bairro de pobre não dá muito chorume.

Mas voltemos ao lixo. Então surge uma outra equação: quanto mais lixo mais chorume. O chorume, como já ficou explicado acima, é o mesmo que líquido percolado. E o líquido percolado é resultado de lixo em decomposição.

Processos biológicos, químicos e físicos que agem sobre o lixo, produzem gases nauseabundos e outros produtos que podem infiltrar-se na terra, atingindo lençóis freáticos, que podem contaminar lagoas e rios.

Mas nada disso importa, pois, se estamos mais ricos, teremos também mais dinheiro para tratar da saúde daqueles que consomem produtos vegetais contaminados, peixes e outros animais ricos em substâncias tóxicas.

Gosto de pensar cientificamente porque a ciência não é moral e moral é invenção humana, pertence à filosofia. Na relação custo/benefício, não tem a menor importância que alguns pobres diabos morram, se a maioria se beneficiar da riqueza. Para os dados estatísticos, de que tanto gostam economistas e cientistas sociais de todas as tendências, isso se chama de progresso. E progresso é o que vale. Mesmo quando o progresso seja dos meios de extermínio em massa, não importa, pois é progresso.

Bem, espero que no aumento do lixo e da riqueza esteja também o aumento da distribuição dela. Não quero ficar de fora do butim.

A filosofia, em algumas circunstâncias, só atrapalha o progresso. Por isso umas tantas pessoas andam dizendo que não se deve ensinar isso nas escolas.

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