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"Que Horas Ela Volta?": Às voltas com imbróglios e conflitos familiares

por Orlando Margarido — publicado 09/08/2015 22h17
Gramado começa com uma decisão um tanto nebulosa, sob veranico de 27 graus
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Regina Casé como Val em 'Que horas ela volta?'

O 43º Festival de Gramado começou no sábado 8, mas desde o início da semana um fato intrigante antecipava de certa forma uma discussão que circundava a abertura.

Longa-metragem brasileiro escalado para a noite de abertura, Que Horas Ela Volta?tinha tudo para entrar com força e brilho na disputa pelos Kikitos, sem falar na popularidade que Regina Casé inevitavelmente traz como protagonista. Mas o filme foi retirado da mostra competitiva na última hora por decisão dos produtores e da diretora Anna Muylaert alegando infringir um artigo do estatuto do evento.

Segundo este, os títulos selecionados à competição não podem estrear ou ser exibidos em pré-estreias de circuito exibidor na decorrência do festival e no caso há uma pré marcada do longa no dia 11, quatro dias antes de Gramado anunciar seus Kikitos. Permaneceu na programação de abertura, mas hors-concours.

Isto é o que foi explicado oficialmente pela assessoria de imprensa em nota. Causou estranhamento, já que esse tipo de exibição acontece a um público reduzido de convidados, e a grade da competição reúne ao menos três títulos já programados, e alguns premiados, em outros festivais.

Há ainda um agravante. O mesmo se passou com o filme na última edição do CineCeará, que perdeu o título para Gramado, sob exigência de ineditismo. Mais estranhamento ainda.

Na manhã deste domingo 8, sob um calor improvável de 27 graus, a coisa ficou apenas um pouco mais clara. No tradicional debate com as equipes, a diretora explicou que, para a competição em Sundance, onde Casé e Camila Márdila ganharam prêmio de interpretação, o filme não estava pronto e foi preciso um esforço concentrado para a finalização.

Para a trajetória em festivais nacionais, a equipe decidiu trabalhar com mais cuidado a participação nas seções competitivas e Gramado teria sido escolhida a melhor vitrine de estréia nacional, até que um dos curadores, Rubens Ewald Filho, teria atentado a regra de não exibição em circuito durante o evento.

Apenas parcial esse esclarecimento e conversas entre a imprensa aventam hipóteses de talvez a equipe ter avaliado o risco do filme sair da serra gaúcha sem nenhum prêmio. Bons competidores todo festival tem, e este não é exceção, mas isto seria não acreditar nas potencialidades do próprio produto.

E aí, imbróglio ao menos debatido, chegamos ao que importa. Que Horas...é um belo filme. Já havia assistido em Berlim, onde o publico deu o aval entre suas preferências, e agora foi bem mais valioso atentar aos detalhes sem me fixar tanto no humor da doméstica Val de Regina, irreverente e contida em seu conhecido histrionismo, e aqui lembro como é talvez importante que ela não faça tanto cinema.
Na minha memória, a descoberta como boa atriz está lá atras, há mais de uma década, com Eu Tu Eles, de Andrucha. Me lembraram seu papel como uma camelô no Saara do Rio de Janeiro, mas francamente não me marcou. Regina, sabemos, pode ser overmas esta é sua persona na tela pequena. Por sorte, ou melhor, muito cuidado, Anna Muylaert cercou-a de bons, senão ótimos atores, alguns não-profissionais, como o escritor Lourenço Mutarelli, o patrão de Val.

Muito se lembrou, como havia acontecido na Berlinale inclusive para a imprensa estrangeira, de uma filiação do filme a O Som ao Redor e Casa Grande, e é possível ainda ampliar o universo aos documentários de Gabriel Mascaro.

 

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Anna Muylaert durante a entrevista coletiva do filme (Igor Pires / Agência PressPhoto)
É fato indiscutível, ainda que se possa fazer reparos à tendência de análise de um e outro filme, mas sobretudo sintoma do que os longas refletem do Brasil de hoje, as transformações pós-Lula, e o de ontem, nem tão mudado assim quando se lembra do período colonial, raiz de muitas questões sociais.

Falamos, claro, do sentido escravocrata, de patronato, de autoritarismo nas relações pessoais e de trabalho, que ainda vigora na sociedade. Se Casa Grandeenxerga isso da sala da rica família para a cozinha, Anna prefere dizer que inverte a mão, e faz da cozinha seu universo. Daria na mesma, pergunto.
Em parte sim, mas é importante frisar que os longas pensam seus universos de modo particular, mais pessoal, com diferentes pesos para os conflitos.

Gostei que lembrassem no debate que o longa de Anna é um painel de afetos, e fui conversar com Rodrigo Fonseca depois de sua fala para dizer que considero um filme mais sobre o não-afeito, e claro, concordamos ser a mesma coisa.
O filho da casa do Morumbi cresce sob cuidados e carinho da babá, depois empregada, de Casé, e distante do amor da mãe (Karine Telles), profissional ocupada. Mas Val também tem seu crédito de desatenção, e é com a filha (Camila), que deixou no Nordeste para ganhar dinheiro e sustenta-la.

Um dia, a jovem determinada ressurge para cobrar a atenção, sob a razão de prestar vestibular. Esse reencontro gera o conflito determinante da trama, com sua ambivalência entre a postura servil da mãe e revolta da filha.
Tudo muito bem articulado no roteiro, também por lances simbólicos, como o jogo de xícaras de presente a patroa, e por ela considerado cafona, e o excesso de mimos sem utensílio que Val recebeu da outra.

 

Apenas que não se pode desfazer de todo, como também se discutiu no debate, da força de Casé com seu personagem e sua empatia de humorista junto ao público, sob pena de perder um trunfo de conquista de plateias.

Relembro caso recente com Praia do Futuro, em que diretor e atores buscavam alterar a percepção de um filme gay com medo do rótulo. E o que seria do longa de Karim Ainouz sem esse amor entre homens senão mais um romance, talvez banal.

A partir do dia 27, Que Horas...precisa levar suas reflexões para fora do gueto do cinema médio, aquele de bilheteria respeitável apenas, mas não definidor de sucessos, como as comédias de pobre carpintaria que tem obtido tal estatura.

A noite já renderia bastante com o longa de Muylaert, mas teve também o simpático curta-metragem Bá, diminutivo do tratamento para avó em japonês.

E é sobre uma delas de que trata o filme, quando em função de um incidente doméstico a avó vai morar com a família do filho, gerando as tensões de praxe nesse caso. Exceto com o pequeno neto, mais sensível e atento.

Ainda, arriscando uma maratona cansativa que efetivamente se deu, foi exibido o primeiro longa latino da competição, En La Estancia, do mexicano Carlos Armella, uma sofisticada estrutura entre o documental e ficção, ao menos na aparência, que merecia horário mais digno para uma justa fluência.

O formato do filme dentro do filme narra o interesse de um documentarista em registrar a vida de pai e filho no interior do México, últimos habitantes de um povoado fantasma. Anos depois, ele retorna ao local com a mulher grávida, encontra a sepultura do velho mas não o filho.

Estabelecem-se ali, e a todo tempo fica-se na expectativa de um conflito de sangue. Este vem em parte, mas de modo surpreendente. Me ocorreu a interpretação psicanalítica de matar ao pai para se conquistar uma liberdade, se libertar, aqui inovado com a ideia de matar o cinema, aquele que pode roubar almas, identidades, como dizem os índios. Um belo filme, a se voltar, em horas mais dignas que não a meia-noite, sem trocadilhos!
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