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Refogado

Que falta faz refogar

por Marcio Alemão publicado 15/07/2012 11h28, última modificação 15/07/2012 11h28
Nos Estados Unidos, mesmo a comida caseira parece fazer parte de atração de parque temático
Refogado

Feijão com escarola eu caboclamente declaro que considero de rara gostosura. Foto: Istockphoto

Eu sinto muita falta de um bom refogado. Sinto falta de comida com boa base. E te digo: como isso é difícil de encontrar nos EUA. Escrevi há algumas semanas que fiquei muito impressionado com a seriedade com que o fast-food é tratado. As cadeias de hambúrgueres, tacos, pizzas chegam com os pioneiros e suas carroças. Fixa-se o néon da lanchonete antes mesmo da axis mundi ou de uma eventual cruz. Melhor dizendo, a axis mundi é um totem de alguma cadeia de comida ligeira.

Mesmo a chamada home cooking parece fazer parte de uma atração de parque temático e nada é muito diferente de um frango assado com purê de batatas ou de um bolo de carne. E ambos costumam ser pincelados com molhos de cores fortes e sabor nem sempre amigável, para mim, claro.

Um exemplo simples da falta de refogado ou falta de paciência ou, simplesmente, pressa: molho de tomate. Raramente se encontra um alho bem incorporado ao molho, ou uma cebola. O alho parece  ter sido colocado no final.  Não cumpriu o seu papel de trocar com as gorduras sabores e aromas.

Todas as vezes em que ele apareceu em meu prato durante a viagem tinha um jeitão de último a entrar na festa.

Até salto semanas para dizer que, quando em casa cheguei, me aguardava um feijão e uma escarola bem refogada. Digo com sinceridade: raras vezes senti tanto prazer em comer uma escarola. E tendo aberto meu coração vou adiante e digo que feijão com escarola, tudo junto e misturado, eu caboclamente declaro que considero de rara gostosura.

E o que me encanta, sim, neste momento posso dar uma de especialista, são as texturas diferentes, o amargo da escarola com o quase doce do feijão e o alho se comportando de dois jeitos diferentes em cada um dos pratos. O azeite que faz a escarola picar um pouco e faz o feijão mais carnudo.

Volta lá para a América e estou diante de um gigantesco prato de rigatoni com camarões com molho de tomates. E vejo os camarões, e vejo as lascas de alho, e vejo que se trata de um molho de tomate. E provei. E senti que tínhamos camarão com gosto de camarão. Alho com gosto de alho e molho de tomate com gosto de tomates em lata. Nenhuma comunhão, união, parceria. Não era um trio, mas três solistas.

E tendo citado o molho de tomates, mais uma coisa que eles jamais fazem direito: o molho de tomate que vai na base da pizza que, para mim, nada tem além de tomates crus. Eles cozinham o molho. Ainda assim em certos dias era o que mais desejávamos: uma singela pizza.

Fora da Ilha de Nassau, em Miami, chegamos a esbarrar em um italiano honesto em uma rua de enorme movimento. Pois nessa rua ocorre um fenômeno que eu diria não ser raro, mas totalmente inaceitável, e vale a pena repetir, inaceitável para mim.

Rua de pedestres, a Lincoln. Temperatura na rua, ao redor de 40 graus. Todos os restaurantes têm mesas do lado de fora e algumas outras no salão. A rua ferve de gente e nos salões com ar refrigerado o movimento é quase nenhum. Pessoas bebendo baldes de cerveja sob um sol de 40 graus sem vento. O que leva o ser humano a agir dessa maneira? O que leva uma pessoa a aceitar um copo de 5 litros de cerveja totalmente sem espuma e que ficou morno entre o bar e a rua?

Diante de cenas como essa, chego a entender por que existem pessoas que gostam de UFC, por que pessoas cometem crimes hediondos, querem a Copa no Brasil...

E teve também o retorno a um restaurante que no ano passado ganhou uma página de elogios, o Michael’s Genuine Food & Drink. Semana que vem.