Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Que cara sou eu?

Cultura

Crônica do Villas

Que cara sou eu?

por Alberto Villas publicado 17/01/2013 10h37, última modificação 17/01/2013 10h37
Quando jovem eu sonhava em plantar e colher cana de açúcar na ilha de Cuba. E hoje?

Onde vou parar? Eu que quando jovem sonhava em plantar e colher cana de açúcar na ilha de Cuba, adubar morangos nos verdes campos da Suécia, semear arroz em Bangladesh e cultivar papoula no Nepal? Eu que pensava isolar-me para meditar num lugar chamado Butão, onde vou parar? Eu que lia On the Road e sonhava pegar a primeira estrada com destino a felicidade, subir e descer as montanhas de Minas Gerais, ganhar a Cidade Maravilhosa e provar da água do mar? Onde vou parar?

Onde vou parar eu que troquei meu tênis Bamba por um Nike Shox Turbo, minhas estantes de vinis da Phillips por cds da Universal, meus filmes Kodak Ektachrome 100 GX por uma câmera digital, o meu telefone preto de disco por um iPhone, a minha agenda Pombo por uma eletrônica, o meu talão de cheques do Banco da Lavoura por um cartão magnético do Bradesco Prime?

Não sei onde vou parar. Eu que troquei minha Olivetti Lettera 22 por um MacBook Air, que troquei meu Passo Doble por um Dr. Martens, minha Colorado RQ por uma Sony de tela plana, que troquei meu Pasquim pelo Le Monde.

Onde vou parar eu que troquei o bandejão do restaurante universitário do Mabillon pelo Spot, que troquei o gibi do Pererê pelo Wolverine, eu que troquei a jabuticaba no pé por um punhado de lichias embaladas em caixinhas de plástico nos supermercados da vida?

Onde vou parar eu que troquei meu Eskibon por um sorvete de limão siciliano da Diletto, eu que troquei minha criação de porquinhos da índia por um coelho luminoso da Urban Outfitters, que troquei a caixinha de Chá Preto Tender Leaf por um pacotinho de Whittard sabor Camomile & Honey?

Onde vou parar eu que já não tenho mais o Fiat 147, aquela camisa listrada tão bossa nova da Casa José Silva, aquele balaio de vime pra fazer compras no Mercado Central, aquela latinha de néctar de pêssego Yuki, aquela garrafa de vidro de Mirinda Morango, aquele segundo caderno do Diário de Minas, aquele exemplar amarelado do jornal Sol?

Onde vou parar eu que troquei o Tesouro da Juventude pelo Google, o meu Sputnik de lata pelo The Sims? Eu que troquei o sanduíche de paté servido pelas aeromoças da Real Aerovias pelo pacotinho de amendoim oferecido pelas comissárias de bordo da TAM?

Não sei onde vou parar eu que troquei o álbum de fotografias pelo Instagram, a radiola três em um pelo iPod, o óleo de bronzear Dagelle pelo Sundown 50, a pasta de dente Kolynos pela Crest, a jaqueta Lee por uma da Gap, o macarrão Adria pelo Barilla, o Amemdocrem pelo Nutella, o sabonete glicerinado da Granado pelo alquinho gel?

Onde vou parar eu que troquei Rei do Estofado pela Tok Stok, o Café Pérola pelo Starbucks Coffee e o livro O que isso Companheiro? pelo Onde está tudo aquilo agora? Eu que troquei a carta pelo e-mail, o mimeógrafo pela impressora, a borracha pelo delete, o abraço pelo abs, o obrigado pelo tks, eu que troquei você pelo vc?

Não sei onde vou parar eu que não sei bem se queria que fosse assim.