Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Quatro anos depois

Cultura

Conto

Quatro anos depois

por Menalton Braff publicado 07/01/2013 14h33, última modificação 07/01/2013 14h33
Então me afastei rapidamente, uma seta envenenada atravessada em meu pensamento: Que horror é a eternidade.
túmulo

Então me afastei rapidamente, uma seta envenenada atravessada em meu pensamen-to: Que horror é a eternidade.

Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo. Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.

Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja, pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros, não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do ente querido. Seu olvido.

Minha silenciosa viagem trouxe-me inúmeras recordações: amigos que haviam partido antes de mim, e as aventuras que compartilhamos; um professor, morto em idade avançada, que declarava com toda a honestidade não gostar de mim; um vizinho com quem tive de brigar por causa do volume excessivo de seu aparelho de som. Coisas da vida, pensei, ninguém se livra delas.

Enquanto caminhava, parando, olhando e lembrando, por aqueles longos corredores, não me dava conta de que tudo era feito para retardar a chegada a meu túmulo. Postergava o momento. Eu queria vê-lo e ao mesmo tempo tinha medo do que veria.

O lugar em que me enterraram fica em um dos extremos mais retirados do cemitério. E é incrível que o tenham conseguido, pois suicidas não podem jazer (quase disse “conviver”) na companhia daqueles que tiveram morte cristã. E o único cemitério da cidade é este onde estou sepultado, o cemitério da Igreja. Não sei quais foram os argumentos utilizados, as mentiras piedosas com que convenceram o padre de que meu corpo não poderia viajar até a cidade mais próxima em que houvesse um campo santo administrado pela prefeitura.

Só a desesperança em sua dimensão absoluta, ia pensando, pode explicar o desejo do fim. Pois foi o meu caso. Elevei o amor por minha mulher à condição de supremo bem, a única razão por que continuar a vida. E isso ela ouviu em confissão que lhe fiz uma noite antes de apagar a luz. Mas ela, assombrada, apenas me encarou por alguns segundos, sem nada dizer. A madrugada, entrando pela janela, me entrou pelos olhos abertos. Naquela noite percebi que meu amor não encontrava em Fricka a ressonância necessária para que a vida se justificasse. Para mim, que a amei com cada uma de minhas células e com uma intensidade que me deixava no limiar da loucura, tornou-se insuportável a convicção de que havia algum segredo em sua vida impedindo-a de me amar.

Só me faltava a certeza, e de minha mulher, de sua boca, jamais conseguiria as palavras que me apaziguassem. Por isso passei a observar os detalhes de seu comportamento. Nada me escapava: seus olhares, os gestos, seus passos, os afagos que me dispensava. Vasculhei seu passado, quis conhecer seus colegas de escola, passava noites imaginando traições. Então achei que seus olhos se evadiam de mim, suas mãos, muitas vezes úmidas e frias, outras vezes quentes e secas no afago que me parecia cada vez mais distraído. Ou urgente.

Com a passagem dos meses, a observação atenta me cansou. E o cansaço me deu a certeza de que precisava.

E foi assim que fui parar logo ali, a vinte passos, à sombra daquelas árvores.

Por fim, me vi em frente a um túmulo em cuja lápide meu nome se destacava. Com minhas datas e uma foto oval em que identifiquei meu rosto antigo. Um olhar triste tinha sido captado pela máquina em uma das últimas fotos que me tiraram. Uns olhos que naquela época já conduziam a uma alma que se arrastava de angústia. Era o sentimento da solidão, do amor sem ressonância.

Me aproximei o suficiente para ver que o lugar onde jazia meu corpo era talvez o mais bem cuidado de todo aquele cemitério. Mármore e granito, vasos com flores artificiais, como eram permitidos, palavras em alto relevo folheadas a ouro, objetos de bronze brunido. Tudo perfeito, impecável, exatamente como eu havia imaginado não estar.

Sentado no ombro da sepultura, gastei as horas de que não tinha mais necessidade. Eu queria entender. Era preciso que entendesse.  Não sei se dormi. Minha noção de tempo anda bastante prejudicada. Mas foi grande o susto quando, sol alto, aproximou-se um vulto totalmente envolto em roupas pretas. Só quando o susto tornou-se surpresa foi que identifiquei Fricka debaixo daqueles panos escuros. Mais magra, mais pálida. Cheguei a me levantar num princípio idiota de fuga: ela não poderia me ver.

Minha viúva lavou as pedras, arrumou a posição das flores nos vasos, bruniu as peças de bronze, então se ajoelhou suspirando ao lado da campa e assim permaneceu por algum tempo. Por fim, levantou-se, enxugou uma lágrima e despediu-se, Até amanhã, meu infeliz amado.

Então me afastei rapidamente, uma seta envenenada atravessada em meu pensamento: Que horror é a eternidade.