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Cultura

Crônica do Villas

Quarta-Feira de Cinzas

por Alberto Villas publicado 29/01/2016 05h36
A partir do dia 10 de fevereiro, não teremos mais jornal em casa
Jornal Folha de S Paulo

Dois dias depois que despachei o e-mail cancelando a assinatura, o telefone tocou

O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que eu quero saber
As notícias que leio conheço
Já sabia antes mesmo de ler

(Gilberto Gil, 1968, em Domingou)

Os anos 70 ainda não tinham chegado quando recebi o meu primeiro ordenado de carteira assinada. Eram 247 cruzeiros e nada mais. Na carteira, estava escrito que eu era Auxiliar de Agrônomo, funcionário CLT do Serviço de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura. 

Eu trabalhava de guarda-pó (esse era o nome do jaleco), separando folhas bichadas de laranjeiras que seriam analisadas pelos Biólogos e Engenheiros Agrônomos do Ministério 

O dia em que recebi o primeiro ordenado (esse é o nome do salário, em Minas), eu nunca vou esquecer. Primeiro, fui até o Mercado Central de Belo Horizonte, comprei uma caixa de morangos e comi inteira, sentado no meio-fio da Avenida Augusto de Lima.

Era um desejo, quase uma promessa. Os morangos custavam caro e eram divididos na minha casa, um pouquinho para cada filho. Eu sonhava em comer muitos, muitos, sem parar.

Segundo, fui até a Lojas Gomes, que ficava na avenida principal da cidade, a Afonso Pena, e comprei dois discos: O Álbum Branco e o Banquete dos Mendigos. Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

Por fim, fui até a Praça Raul Soares e fiz uma assinatura semestral do Diário de Minas. O dinheiro era curto e não dava para uma assinatura anual. O meu pai assinava O Globo mas eu, naquela rebeldia toda, levava a sério o poema de Carlos Drummond e enfiei na cabeça que eu seria gauche na vida.

Não que o Diário de Minas fosse um jornal de esquerda, mas era bem diferente do Globo que o meu pai lia. Achei que ele era mais a minha cara, uma cara com uns óculos redondos de John Lennon, algumas espinhas e uma juba de leão.

O meu pai vivia martelando na nossa cabeça que tínhamos que ler jornal todo dia para ficarmos atualizado.Se alguém perguntasse quem foi o astronauta que pisou na lua pela primeira vez, por exemplo, a gente tinha de saber. E ficava sabendo lendo jornal. Essa era a filosofia do meu pai.

Fiquei todo orgulhoso quando abri a porta da minha casa e vi, no capacho, o primeiro Diário de Minas com o meu nome. Os jornais vinham com o nome dos assinantes lá em cima, perto do logotipo.

Nunca mais deixei de assinar jornal.Em Paris, mesmo nos anos de vacas magras, assinei o Le Monde, no primeiro dia que cheguei na faculdade e vi uma banquinha anunciando assinaturas pelas metade do preço para estudantes.

Quando a vida melhorou um pouco, quando parei de descascar batatas e fui promovido a caixa do restaurante Les Hauts de Belleville, assinei, além do Le Monde, o Libération e o Le Matin.

Três jornais? Sim, virou um vício. Eu não só lia como recortava as principais notícias. Umas iam pra pastas e outras eu enviava pro Brasil, em envelopes verde e amarelo.

Muitos anos depois, de volta ao Brasil, instalado em Higienópolis, fiz as contas e as assinaturas: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil, tamanho era o vício de Jornalista formado, ex-Auxiliar de Engenheiro Agrônomo.

Até hoje costumo acordar por volta das seis horas, quando ouço o elevador chegando no meu andar e o porteiro jogando o jornal no capacho. 

Um jornal apenas, a Folha de S.Paulo. Sim, as assinaturas foram sendo canceladas assim que os anos foram passando. O Jornal do Brasil, porque acabou, o Estadão porque me irritei com as cartas dos leitores e O Globo por causa da coluna do Merval Pereira.

A Folha resistiu bravamente até a semana passada, quando contratou Kim Kataguiri para ser colunista online.Dois dias depois que despachei o e-mail pedindo o cancelamento da minha assinatura, o telefone tocou.

Era da Folha de S.Paulo querendo saber porque eu iria cancelar uma assinatura que estava em vigor desde 1980. Expliquei que a gota d’água tinha nome: Kim. Fiquei exatos 78 minutos no telefone. Não teve jeito.

Depois dos 78 minutos, o funcionário da Folha desistiu e me passou o número do protocolo de cancelamento.

Avisou que vou receber o jornal até o dia 9 de fevereiro, que é quando termina minha assinatura. Olhei no calendário e vi que cai numa terça-feira de carnaval.

Isso significa que a partir da quarta-feira de cinzas, depois de 40 anos, eu não vou mais ouvir o elevador chegando no meu andar e o barulho do jornal sendo jogado no capacho.

Agora, se alguém me perguntar quem foi o astronauta que pisou pela primeira vez na Lua, vou responder na lata: Neil Alden Armstrong! Sei porque eu li, um dia, no Diário de Minas.