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Quadros sonoros

por Alexandre Freitas — publicado 17/12/2009 15h49, última modificação 20/09/2010 15h50
Há algum tempo venho tendo a sensação de que as fronteiras entre música e artes visuais estão se dissipando, ou melhor, se atenuando. Não de maneira repentina, nem tampouco como forma de ruptura. Acho que estamos percebendo que a maioria dos limites que colocamos entre as coisas são artificiais e precários. Cada vez mais somos solicitados a sair daquele espaço onde nossa formação nos levou e explorar novos territórios. Os riscos são grandes, mas, quando nos mantemos em nossos “lugares”, eles parecem ainda maiores.

Há algum tempo venho tendo a sensação de que as fronteiras entre música e artes visuais estão se dissipando, ou melhor, se atenuando. Não de maneira repentina, nem tampouco como forma de ruptura. Acho que estamos percebendo que a maioria dos limites que colocamos entre as coisas são artificiais e precários. Cada vez mais somos solicitados a sair daquele espaço onde nossa formação nos levou e explorar novos territórios. Os riscos são grandes, mas, quando nos mantemos em nossos “lugares”, eles parecem ainda maiores.

Na arte, o germe de uma vontade totalizadora do romantismo foi eclodindo gradualmente: óperas de Wagner, poemas de Baudelaire sobre a correspondência das artes, poemas sinfônicos de Liszt e Strauss, obra sinfônica com projeção de cores de Scriabin, os happenings, esculturas sonoras, etc. Poderia ainda citar inúmeros exemplos dessa vontade de olhar pela janela do vizinho. Vontade de ir além.

Na última sexta fui a um recital no famoso Théâtre des Champs Elysées, cenário do ”Sacre du printemps” de Stravinsky, entre outras importantes estréias. Os personagens da noite: o pianista norueguês Leif Ove Andsnes e o artista plástico sul africano, Robin Rhode. A obra capital do programa: Quadros de uma Exposição, composta por Modest Mussorgsky em homenagem ao seu amigo, Victor Hartmann. Originalmente para piano e mais conhecida na versão orquestral de Ravel, a obra é uma suíte-rondo, um conjunto de pequenas peças ligadas por um refrão. A execução ao piano de Leif Ove Andsnes foi acompanhada por um vídeo projetado e controlado ao vivo por Robin Rhode. O vídeo não tinha relação direta com os verdadeiros quadros da exposição que Mussorgsky visitou, nem com o titulo das peças e ainda menos com a estética especifica da obra para piano. Mas as obras se correspondiam tão intensamente que, às vezes, era a música que parecia responder à imagem. Acompanhamos uma mistura de desenhos, imagens digitais, fotografias, street art, manipulações de todo tipo, mas que soavam com unidade e coesão nela mesma e com a música. Havia uma cumplicidade entre o compositor e os intérpretes. Isso mesmo, o artista plástico era também um intérprete, na medida em que traduzia parâmetros sonoros em visuais com muita fidelidade. Uma fidelidade entendida de maneira ampla, como o encontro de um lugar comum no cerne poético da obra.

Venho observando que encontros como este tem sido relativamente frequentes e exposições, em torno das interações entre música e artes visuais, já fazem parte de uma rotina em vários museus e centros culturais. O estreitamento das fronteiras entre as artes não é nada mais que uma abertura nas poéticas, nas estéticas e em nossas percepções. Já disse Kandinsky no livro Do Espiritual na Arte: “Os sons e as cores se correspondem porque a pintura não se recebe exclusivamente pelos olhos, nem a música exclusivamente pelos ouvidos, mas ambas as artes se dirigem aos cinco sentidos”.

No Youtube existe um pequeno vídeo sobre a apresentação dos dois artistas citados nesse artigo: clique aqui e assista.