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Jornalismo desenhado

Quadrinhos no front de batalha

por Gabriel Bonis publicado 12/07/2011 19h21, última modificação 17/07/2011 11h20
No Brasil para a Flip, quadrinista Joe Sacco, autor de Palestina: Uma Nação Ocupada e vencedor do prêmio Pulitzer, mostra a arte de fazer reportagens por meio de ilustrações
Quadrinhos no front de batalha

No Brasil para a Flip, quadrinista Joe Sacco, autor de Palestina: Uma Nação Ocupada e vencedor do prêmio Pulitzer, mostra a arte de fazer reportagens por meio de ilustrações. Foto: Levi Olivares

Em um pequeno espaço improvisado em uma livraria de São Paulo, 90 cadeiras de plástico e um projetor compunham o cenário de uma palestra do quadrinista Joe Sacco, no início da tarde de terça-feira 12. Franzino, o autor que entra no recinto com olhar assustado em nada aparenta ter o perfil de quem passou costumeiramente pelas mais diversas regiões em guerra do planeta, como a Bósnia.

Pequeno, o jornalista maltês, de 51 anos, faz piada de si mesmo para uma plateia composta por jovens. “Vou ficar de pé para vocês me enxergarem e para que eu possa vê-los”.

Não parecia, mas Sacco acabava de entrar em um outro tipo de front: trinta minutos após começar a falar, o bom humor teve de ser deixado de lado quando uma espectadora questionou seus motivos para não abordar os conflitos entre palestinos e jordanianos em suas obras. “Essa é a minha opinião sobre o tema, você não precisa gostar dela”, rebateu.

As relações palestinas no Oriente Médio, mesmo quando abordadas de forma mais leve por meio dos traços, são um assunto sensível a ponto da colocação de uma palavra provocar discussões ríspidas. A mesma mulher perguntou a Joe Sacco porque se referiu aos assentamentos israelenses nos territórios da Palestina como "judeus". "Utilizo esse termo da mesma forma que a mídia americana, mas faço a distinção entre israelenses e judeus", disse, mas para reestabelecer a ordem foi necessária a intervenção de outros espectadores.

Jornalismo desenhado

Sacco se utiliza de um estilo de jornalismo inusitado para compor suas reportagens, retrata histórias de conflitos utilizando quadrinhos com traços realistas. “Precisa ser assim por ser um trabalho jornalístico e por causa da temática, embora não goste desse traçado”, explica o autor de Palestina: Uma Nação Ocupada, Notas Sobre Gaza e Uma História de Sarajevo, cartunista que já recebeu o prêmio Pulitzer por seu trabalho. “Os quadrinhos são uma ótima mídia para o jornalismo, porque mostram em detalhes uma situação talvez muito difícil de descrever”.

Em slides, Sacco mostra desenhos próprios da Palestina, cenário de duas de suas mais importantes e famosas obras. “Tudo que sempre ouvi da mídia americana sobre esse local foi a associação com o terrorismo, por isso tive que ler muito para ter outro ponto de vista”, diz o autor, que foi para a região pela primeira vez na década de 90. “Não sabia como chegar às histórias, às pessoas, mas tive que me colocar nessa situação difícil. Depois retratei esse estranhamento em Palestina: Uma Nação Ocupada”.

Por não falar árabe, ele explica que pegava uma espécie de táxi-lotação e descia nas cidades. “Sempre algum jovem chegava e me perguntava o que estava fazendo ali. Dizia que queria conhecer a realidade e eles me levavam. Foi assim que consegui as histórias, uma espécie de jornalismo acidental”, brinca.

A projeção mostra desenhos de um campo de refugiados em Rafa, onde a concentração de pessoas é tamanha que a cidade consegue crescer apenas verticalmente. Os traços apresentam com clareza o avanço das construções sobre as ruas, formando inúmeros becos. “Aqui é possível ver como aqueles que têm algum dinheiro conseguiram construir suas casas para cima e os pobres usam pedras sobre as telhas para que elas não voem”, aponta no slide, enquanto completa: “Quero que os leitores se sintam como se estivessem lá”.

As cenas dos livros se baseiam em fotos tiradas pelo jornalista, mas o processo de criação é demorado. O maltês produz cerca de dez páginas por mês, sendo que sua obra mais recente, Notas Sobre Gaza, tem 432. Porém, Sacco destaca que, apesar utilizar a linguagem de graphic novel, a investigação jornalística é a mesma de um profissional de texto. “Também faço entrevistas e anotações, mas procuro perguntar às pessoas elementos que me ajudem a desenhar”.

Em Notas Sobre Gaza, Sacco chegou à Palestina pouco antes da invasão americana ao Iraque em 2003. “As pessoas achavam que seria o fim do mundo e que os israelenses aproveitariam para atacá-los”, diz. Sobre os confrontos Israel-Palestina, Sacco comenta o recente discurso do presidente dos EUA, Barack Obama, sobre o retorno das fronteiras palestinas à marcação de 1967. “Não vejo mudanças nessa fala, que também foi de George W. Bush e representa a posição dos EUA sobre o assunto. O interessante foi o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu dizer claramente que isso não ocorreria”.

Subjetividade

Os trabalhos de Joe Sacco foram financiados pelo próprio autor, com exceção de Notas Sobre Gaza, pelo qual teve um contrato prévio. Em seus livros, ele explica, procura explicar o “cenário amplo pelas histórias das pessoas na rua”, sempre contextualizando os conflitos.

Sacco também contraria o conceito da objetividade aprendido na faculdade de jornalismo, que apresenta o repórter como um ser de opinião neutra, por crer que “algumas verdades são, por si próprias, objetivas”. Com isso, utiliza a si mesmo como personagem em suas histórias. “Faço isso para dizer que aquilo é subjetivo, a minha visão”.