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"Pssica": Do revenge porn à prostituição infantil

por Matheus Pichonelli publicado 25/09/2015 16h24
No livro de Edyr Augusto, escola, governo e família são instituições incapazes de conter a naturalização de uma violência sem exclamação. São as primeiras a levantar a mão ao tapa
Ban Human Traffic/Reprodução
Janalice

Da protagonista, não sabemos nada. Não foi dada a ela a permissão de pensar, sonhar, sentir, sofrer, apenas o de servir

Edyr Augusto é um dos principais representantes de uma tradição literária que tem em Rubem Fonseca sua maior referência. Nesta escola, pouco importam as pistas para a resolução do crime ou de uma série de crimes do chamado romance policial. Importa é o pano de fundo para outra revelação: a dos vícios e violências embrenhadas e mal investigadas do próprio país.

Na novela recém-publicada Pssica (Boitempo Editorial), palavra que remete a “maldição” na gíria regional, a ideia de delinquência é atualizada em seu ponto de partida; quando a arma dispara, é tarde para reconhecê-la.

No livro, uma adolescente vê o mundo desabar quando vaza, entre os colegas de sua escola, em Belém, um vídeo íntimo gravado com o namorado. Expulsa de casa, deixa a escola e vai morar na casa da tia, onde é violentada e empurrada para as ruas, as drogas e os aliciamentos. O outro lado da história (o namorado), obviamente, passa bem.

O mundo onde a vítima tenta se apoiar não tem amparo. É tão seco quanto escorregadio. O resultado são 94 páginas de queda livre narrada em parágrafos curtos, sem travessões ou pontos de exclamação, para tratar de um tema que, além daquelas páginas, parece não chocar nem causar piedade: a violência sexual.

A frieza da narrativa reforça, não por acaso, a aridez do tema. De Janalice, a protagonista, não sabemos nada. Nem o que pensa, nem o que sonha, nem o que sente, nem como sofre. A estrutura da novela é o resumo da sua desgraça: não foi dada a ela a permissão de pensar, sonhar, sentir, sofrer. Porque o papel dela no mundo, e não apenas na trama, é servir. Não porque cresceu numa espiral de abandono da qual uma parte do país, relegada à pobreza, é obrigada a lidar. O abandono ali é outro, e ele desvirtua a ideia de ausência – do Estado, da família, da escola.

Pois é justamente dentro dessas instituições, em uma estrutura de classe média da capital paraense, que a violência ganha força, transforma corpos em objeto e tira deles qualquer humanidade.

No livro, essa conversão em objeto começa justamente dentro de casa, onde os pais substituem o acolhimento pela vergonha, e da escola, onde a decisão privada é exposta ao escrutínio público sem qualquer filtro ou amparo. A partir dali, Janalice não tem sequer nome: é só a “vadia”.

A agressão, mostra Augusto, é só (e não apenas) a ponta de uma mesma violência banalizada, seja na cidade grande, seja numa ilha em Marajó.

Nos debates sobre revenge porn, a responsabilidade, o consentimento e a maturidade do adolescente que grava e se deixa gravar é sempre reduzida a uma questão de “vacilo” – que, em geral, precisa ser punido pela exposição, sobretudo por homens, sobretudo adultos.

Estes, muitas vezes os mesmos que clamam pela punição aos chamados menores infratores, são quase sempre incapazes de refletir sobre a responsabilidades deles ao também compartilhar e multiplicar o discurso sobre corpos e a sua exposição, sobretudo quando a vítima é adolescente e ela não tem outro nome se não "novinha".

"Me salva", diz a personagem, em mais de uma passagem, como se mirasse em nós, leitores. "Me salva".

No livro de Edyr Augusto, governantes, policiais, professores, direção escolar e familiares – todos os representantes, portanto, das instituições de amparo – servem exatamente como molas propulsoras da marginalização da mulher, por meio da culpa, da omissão e, por fim, de uma rede só aparentemente distante de exploração sexual, financiadas por outros homens de família, muitos deles com a imunidade conferida pelo mandato.

As instituições, feitas por adultos e para adultos, estão lá, mas são incapazes de conter a naturalização de uma violência já sem exclamação. Pelo contrário: são as primeiras a levantar a mão ao tapa que pune, omite e empurra para o abismo.