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Crônica do Menalton

Profissão: escritor

por Menalton Braff publicado 18/02/2013 10h49, última modificação 18/02/2013 10h49
O escritor escreve por necessidade de expressão. Se isso lhe trouxer algum benefício pecuniário, tanto melhor. Não vai morrer de fome

Leio na Publishnews de 15 de fevereiro que o Luiz Ruffato se considera um profissional da literatura. Muita gente deve ter-se sentido mal com a declaração do Ruffato.

Isso me lembra uma entrevista que tive com o Caio Graco, nos idos de 1970, lá na Editora Brasiliense. Era meu primeiro conto publicado por uma editora (volume 6 da coleção Contos Jovens), meu primeiro cheque de direitos autorais. Em nossa conversa, o Caio, com sua longa vivência de editor, me dizia que um dos defeitos dos escritores brasileiros era não se assumirem profissionais da escrita.
Saí daquela entrevista com um pequeno cheque esquentando meu bolso, e uma ideia esquentando minha cabeça. Quero ser escritor profissional. Não consegui. Pelo menos não consegui tão logo poderia supor. Tive de passar ainda muitos anos dizendo o que é literatura, contando a história da literatura brasileira, seus autores emoldurados por seus textos, até me aposentar. Falar de literatura não era nenhum sacrifício. Claro que em uma mesa de bar, cercado de amigos, era sempre bem melhor do que em sala de aula falando para um público que, em sua maioria, se preocupava muito mais com a prova no fim do bimestre do que com o conhecimento.

Hoje, aposentado da sala de aula, posso dizer que me profissionalizei na literatura. Verdade que ainda um arremedo de profissionalização (tenho de somar a magra pensão a direitos autorais, cachê de palestras e feiras de livros para sobreviver), mas posso dizer que vivo sustentado pela literatura.

Não tenho certeza se as reflexões que seguem me acompanham desde aquela sala espaçosa, lá na Brasiliense, ou se através dos anos venho pensando no assunto. O fato é que cheguei à conclusão de que uma boa parte dos escritores, bem como de toda a intelectualidade, carrega inconscientemente uns ranços de presunção aristocrática. Um nobre, dedique-se ao que se dedicar, deve fazê-lo amadoristicamente, não por necessidade. A arte, assim, está muito próxima do hobby. O artista trabalha por império de sua inspiração, jamais por imposições pecuniárias.

Bem, em primeiro lugar, este negócio de inspiração já é bastante démodé. Isso era conversa de românticos no século XIX, eles que se consideravam os porta-vozes do além, os condutores do rebanho humano. Por isso a necessidade de se criar uma aura com que fossem vistos os escritores.

Disse muito bem o Ruffato. Somos seres comuns, com necessidades comuns. Mas alto lá: não se confunda profissionalização como escritor com escrever “para ganhar dinheiro”. O vil metal é necessário à sobrevivência do escritor? É. Mas raros foram os escritores que escreveram visando apenas ao cheque dos direitos autorais. Aluísio Azevedo e Camilo Castelo Branco são dois exemplos de escritores que, por necessidades financeiras prementes, viram-se obrigados a produzir para matar a fome. E quase sempre, nestes casos, deram-se mal.

O escritor escreve por necessidade de expressão. Se isso lhe trouxer algum benefício pecuniário, tanto melhor. Não vai morrer de fome. Claro, estou falando de alta literatura. Que me perdoem aqueles que não acreditam em alta literatura e literatura banal, de consumo. Eu continuo acreditando.