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Crônica

Procura-se: Céu para alugar

por Eduarda Freitas — publicado 06/07/2011 10h48, última modificação 07/07/2011 09h58
A minha única exigência é que os vizinhos dos céus ao lado ou acima, não reclamem se alguma clave de sol lhes for tocar à porta
Eduarda - Simão Martinho

Um lugar ao céu. Por Eduarda Freitas. Foto: Simão Martinho

Ando à procura de um pequeno céu para alugar.

Um céu sem grandes luxos, uma coisa simples, não muito grande, onde caiba uma pessoa nem gorda nem magra: eu.

Um céu com vistas para cima, mais para cima, para cima de cima.

Não tenho preferência pela cor. Pode ser um céu pintado de azul mas também pode ser pintado de cor-de-laranja-fim-de-tarde ou de preto-cor-de- boas-noites ou quase-branco- de-nuvens-aos-molhos.

Um céu sem divisões obrigatórias, qualquer coisa como um open space, com espaço suficiente para me esticar ao sol.

Gostava também que tivesse um pequeno jardim, ou uma varanda, para plantar estrelas. Dizem que as estrelas no céu são boas de cultivar e dão luz em pouco tempo.

Percebo pouco de céu-cultura, mas para isso é que servem os livros com ensinamentos e como penso seriamente em dedicar-me a esse tipo de ofício, tenho andado a ler diversos textos de cultivadores de palavras que explicam direitinho a altura do coração em que as estrelas dão mais luz.

Espero aprender alguma coisa nos próximos tempos, aprender de verdade, porque pelos vistos é preciso muita dedicação.

O céu que ando à procura para alugar, não precisa ter aquecimento central. Muito menos global. Quero um céu que seja bem local. Fácil de localizar até na palma da mão. Para receber o mundo sem sair do céu. Estico a toalha e faço de todos os dias fins de tarde. Para que seja sempre cedo e tenha sempre tempo para o tempo.

Que até pode chover que eu não me importo. Sou uma Maria vai com o vento.

A minha única exigência é que os vizinhos dos céus ao lado ou acima, não reclamem se alguma clave de sol lhes for tocar à porta, ou algum balão de risos subir tão alto que bata no tecto do meu céu que pode muito bem ser o chão deles. Temos que ser uns para os outros.

Eu – inicialmente - até pensei em comprar um céu pequeno, um céu que depois ficasse mesmo para mim. Mas hoje em dia um céu comprado fica muito caro. E depois há os bancos que pedem este mundo e o outro por um simples pedaço de céu e esquecemos a vida toda a paga-lo.

Eu pensei pouco e decidi que preferia alugar. Até porque se me fartar do meu espaço, alugo outro céu. É só juntar as estrelas e virar a lua ao contrário. Não há compromissos com bancos.

Só com bancos de ar. Que fazem tremer a barriga.

Tenho andado numa agitação: já fui a várias imobiliárias e até procurei na internet, mas só me aparecem céus-de-faz-de-conta.

Desses conto eu vários.

Se por acaso alguém souber de um céu – que até pode ser usado – para alugar, diga-me por favor.

A minha morada (para já) é:

Rua na Terra, 100 número.