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Primeira memória

por Orlando Margarido — publicado 06/02/2011 13h46, última modificação 06/02/2011 13h46
"O Samba que mora em mim", de Geórgia Guerra-Peixe, que estreia nos cinemas na próxima sexta-feira, dia 11, apesar do título, não se trata aqui propriamente da música, e sim de quem a faz ou apenas convive com ela como morador. Por Orlando Margarido

Talvez pela estirpe musical familiar, mas por certo na experiência de infância, o caminho para o Morro da Mangueira já estava aberto para a diretora carioca Geórgia Guerra-Peixe. O que ela faz em O Samba Que Mora em Mim, documentário previsto para estrear na sexta 11, é trilhá-lo com naturalidade. Dispõe-se, com sua câmera discreta e cuidadosa, a captar personagens e o cotidiano da comunidade sem espanto ou especulação. Sobrinha-neta de compositor erudito, o fluminense César Guerra-Peixe, ela acostumou seus ouvidos desde criança aos ensaios da Estação Primeira, gremiação carnavalesca de que seu pai foi diretor cultural. Apesar da proximidade, raramente saiu da quadra da escola e subiu o morro. Por isso também o filme é de resgate pessoal e de cunho memorialístico.

A narração em primeira pessoa explica a afinidade com o tema. Apesar do título, não se trata aqui propriamente da música, e sim de quem a faz ou apenas convive com ela como morador. Além de evocar o samba, como no caso de um músico e expoente da escola, depoimentos contemplam os ritmos populares do pagode e do funk, o que dá ideia das transformações do lugar e de certo espírito democrático.

Há, é verdade, um contexto de vida alegre, um tanto idílica, que se nota proposital quando a diretora deixa para
a melhor personagem entrevistada um comentário sobre a violência. Uma senhora centenária descreve como um dos meninos do morro “que se perderam” tratou de levá-la ao hospital, mas lá não a esperou, com medo da polícia. Se mantém prudência diante de determinada realidade, é na fantasia do carnaval que Geórgia arrisca. Interessante sua opção de não mostrar a festa na avenida, mas a partir dos preparativos dos integrantes e dos televisores que ficam no morro.