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Preto, branco, mau

por Rosane Pavam publicado 26/06/2009 15h08, última modificação 16/09/2010 15h10
Morto de uma parada cardíaca quiçá após o uso de remédios aptos a fazê-lo reagir, ao show business e à vida, o pródigo músico Michael Jackson foi, para minha infância, um time de futebol

Morto de uma parada cardíaca quiçá após o uso de remédios aptos a fazê-lo reagir, ao show business e à vida, o pródigo músico Michael Jackson foi, para minha infância, um time de futebol. Torcíamos, as crianças, para que ele pusesse os adversários, os velhos, os caretas, os brancos sem alma, no chão, e com sua luz iluminasse as falsas lantejoulas que portávamos na sala de jantar, com o objetivo de cegar os pais. Fãs são homens do templo. Por isso, projetávamos naquela espécie de pelé soultrain um grande futuro, no qual passaríamos da humilhante infância em que nada éramos, sempre os últimos a falar, diretamente a um panteão de reconhecimento, livres das dores adultas.

Ele cantava Music and Me aos 15 anos e, sim, a voz se parecia com a de uma menina ou de uma mulher, ainda mais reverberada pela desajeitada Rede Globo de Televisão, que a encaixara como a ilustração do amor da menina crescida Regina Duarte por um Marcos Paulo lindo como James Dean em Carinhoso. Naqueles anos, a tevê e Michael Jackson eram em preto e branco, tudo era preto ou branco, jovem ou velho, guerrilheiro ou militar, polícia ou bandido, religioso ou ateu. E Michael Jackson já começava a misturar as coisas.

Em outra parte inalienável do mundo, aquele gênio do acaso que lembrava Stevie Wonder em seu começo, seguro, sorridente, impossível no ritmo do corpo, infalível como Bruce Lee nas notas agudas, aparentando com elas toda a facilidade do mundo, impunha sua infância à obviedade de quem crescera. Não posso imaginar a tortura por que passaram Tito, Jermaine, Janet e outros tantos dos Jackson Five (porque eles eram sempre mais) nas mãos do patriarca Joe, sem direito à brincadeira e às bonecas. Só houve a música então.

Não me importava Michael Jackson nenhum até que estourasse com I Wanna Be Startin' Somethin', já esperto para a necessidade do videoclipe em um paletó, veja só, de lantejoulas, e propusesse uma outra sonoridade para a canção negra, produzida e ironicamente mecanizada, desgostosa das purezas. Em minha vida particular, eu pretendia começar uma profissão que os muitos anos me fizerem entender como uma pista de corridas. O músico funcionou, nesta competição de cavalos, como vagalume no jardim.

Os estudantes de jornalismo tinham um tremendo repúdio por Michael Jackson. Nem todos, mas muitos, certamente. Aproveito, nesta ocasião, para agradecer a doce e nostálgica necessidade do diploma para exercer a profissão. Graças a ela nos metíamos em uma universidade para experimentar um modo de entender rapidamente as coisas e, de um jeito ainda mais amalucado, expressá-las em poucas linhas. Minha escola de comunicações e artes não era moleza. Ninguém dava prova de Gay Talese. Como eu penei para compreender Louis Althusser, o teórico que matou a mulher, e como me foi útil!

Deve-se entender os jornalistas. Eles correm na pista mais próxima do gramado. Michael Jackson é um assunto aumentado por eles (por nós), tanto quanto o extraordinário salto que o músico deu, influenciado por James Brown, Wonder e Nicholas Brothers, ao propor uma união com a cultura branca. O guitarrista Eddie Van Halen foi escondido gravar seu solo histórico em Beat It, porque, se seus irmãos soubessem que ele se misturava com a ala musical de Michael Jackson, não o perdoariam. A faixa pôs às claras que os limites para a música pop não eram raciais _ algo óbvio de perceber em nossos dias.

Vendo-se rei desta fusão, o menino Michael embaralhou-se, por certo, e viu-se rei na vida. Fez o que fez, transformou-se. Entre plásticas mal-sucedidas, pilantragens financeiras ou sexuais (quem eram as mães que entregavam seus filhos a uma celebridade para um fim de semana em Neverland?), ele continuava a reverberar as lantejoulas infantis do manifesto. Eles não ligam para nós! Não importa se você é negro ou branco! Todos foram gritos dentro de músicas sempre perfeitamente ajustadas às tecnologias novas, às imagens coreografadas e também chocantes, de jovens espancados ou favelados, como os do Brasil. Deste Michael Jackson ninguém se desvencilha. Ele não era negro nem branco. Ele era mau.