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Presunto apimentado

por Rosane Pavam publicado 02/10/2008 15h24, última modificação 16/09/2010 15h25
Gosto de imaginar que o homem se distinguiu dos outros animais ao contar a primeira piada. Não teria sido uma piada de papagaios, antes uma história ironizando um outro homem, ou uma outra mulher.

Gosto de imaginar que o homem se distinguiu dos outros animais ao contar a primeira piada. Não teria sido uma piada de papagaios, antes uma história ironizando um outro homem, ou uma outra mulher. Quando contou sua primeira história engraçada, ele sentiu que agradou ao outro ou à outra, no sentido sexual, e não parou mais de inventar situações ridículas com fechos inesperados para fazer brilhar os olhos alheios. Um piadista de posse das palavras tem arma mais eficaz do que o tacape, diz, em outras palavras, Geoffrey F. Miller, autor de A Mente Seletiva. Melhor fazer o pretendente rir do que lhe puxar os cabelos.

O humor não é um confronto direto, como o boxe dos animais. É antes uma arma de delicados subterfúgios. Paramos nas cordas, conversamos e vencemos o opositor pela força argumentativa que o desnorteia. A sutileza caminha rapidamente neste esquema, como um esquilo na varanda. Um contador de piadas anda por onde quer. Defendo o humor sobre várias coisas, ainda que, pessoalmente, não o exerça com a freqüência com que desejaria. Isto explica algo sobre o que eu e grande parte dos homens temos a aprender.

Isto também explica por que Monty Python, por exemplo, parece-me uma categoria contemporânea do pensar, antes mesmo de designar um grupo de humoristas ingleses que fez sucesso na televisão inglesa das décadas de 60 e 70. Muitas coisas foram inventadas por Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin e Terry Jones enquanto se divertiam. Quando vejo um cientista como Steven Pinker admitir isto no livro Do que é Feito o Pensamento – A Língua como Janela para a Natureza Humana (Companhia das Letras, 562 págs., R$ 56), sinto recompensa por tantos anos em que, à moda de um sonho, pareceu-me ter pensado estas coisas óbvias quase sozinha.

Pinker conta que a palavra spam como hoje a conhecemos, mensagens de propaganda invasivas, repetidas a esmo para entupir nossas caixas de memória digital, foi estabelecida a partir do sucesso de um quadro dos Python em 1970, durante o programa de tevê Monty Python’s Flying Circus (as temporadas encontram-se à venda em DVD, e o quadro spam pode ser acessado no youtube, linkhttp://www.youtube.com/watch?v=BIWk5bGno58). Neste esquete, Terry Jones, vestido de mulher, diz a um casal formado por Eric Idle (o marido) e Graham Chapman (a esposa), sentado em uma taverna onde há vikings, que tem muitas opções de comida a oferecer a eles. Todas com spam.

Em inglês, spam é uma abreviação de spiced ham, presunto apimentado. Por que cargas d’água tudo tem de ser oferecido com spam, Idle e Chapman não comprendem no princípio e não compreenderão ao fim do esquete. Mas o efeito da repetição da palavra spam faz nossa mente funcionar de um jeito delirante, de modo a guardar o vocábulo para um uso posterior. Como diz Pinker: “Embora o meio em que nossa consciência trabalhe seja o fluxo temporal, não é assim que o tempo é tratado dentro da divisão do pensamento conectada à língua. Nessa divisão, o tempo é tratado como uma dimensão do espaço, e os seres humanos pensam nos acontecimentos como um material disposto ao longo desse espaço. O tempo pode ser concebido como uma estrada por onde avançamos, ou como um desfile que passa diante de nós.”

O uso que os Python fizeram de spam no passado tornou a palavra o que é hoje. Mas não se pode determinar o que pegará, como termo útil, em nossa vida cotidiana. O povo é engraçado nos Estados Unidos. Lá existe uma Sociedade Americana de Dialetos que estuda os falares das ruas. Anualmente, essa instituição escolhe uma palavra nova com chances de ser adotada como oficial. Mas os membros da sociedade, diz Pinker, são os primeiros a admitir que seu histórico é péssimo. Um neologismo pode não durar e outros podem surgir, avassaladores. Pergunta-se o cientista da cognição: “Alguém teria como prever que to blog, to google e to blackberry iriam rapidamente se tornar parte da linguagem do dia-a-dia?”

A descoberta de que o que os Python inventaram pegou de algum modo, e que este algo ali identificado como surreal hoje nos persegue como terrível normalidade, me faz esperar por alguma coisa mística dos seres humanos. Por que maltratam tanto esses intérpretes sociais, meu deus? Por que, se são anárquicos ou incisivos, parecem desprezíveis? Por que promoveriam a baixaria ou nos desmobilizariam? Pelo contrário, os humoristas estão alertas. Eles inventam, refletem, viram de cabeça para baixo o que conhecemos dentro deste mundo que, na verdade, é só representação, freqüentemente má.

Precisamos talvez de mais humoristas além daqueles que há nesta terrível, deprimente tevê. Vamos respeitá-los. E admitir que Fernanda Young, por exemplo, seja um deles. Ela traz amigos e admirados a sua poltrona para que compactuem com seu humor, que ela quer mau. Bons cabelos, bons vestidos, tatoos e pressa. É uma humorista da palavra deslocada. Escondidos na caverna sombria onde vivemos – e que nos paralisa, esta sim –, observamos sorridentes a moça moderna.