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Prédios são ruína

por Rosane Pavam publicado 16/09/2010 16h17, última modificação 16/09/2010 16h17
Uma pintura que minha memória guarda é aquela em que Aldo Bonadei mostra telhados do casario na rua Abolição. Vistos a partir de uma janela alta, os telhados se tornam um gramado místico, uma linha para o horizonte delimitado

Uma pintura que minha memória guarda é aquela em que Aldo Bonadei mostra telhados do casario na rua Abolição. Vistos a partir de uma janela alta, os telhados se tornam um gramado místico, uma linha para o horizonte delimitado. É como se, medievais, habitássemos a Terra achatada, confortados com a idéia do fim. A grande pintura mais sugere do que mostra: na tela de Bonadei vejo gatos escorregando entre os vãos das telhas; cacos de vidro brilham sobre elas como estrelas traiçoeiras; e há um pouco de água das bacias descendo como cascatas pelos canos. Depois do casario, nada.

Nasci e passei a infância na Bela Vista retratada com sinceridade e mistério por este grande artista de São Paulo. Mas nossa vida não tinha segredos. Quem nos dera que um ínfimo talento de Bonadei nos possuísse, nós desta família intimidada pelo trabalho escasso em corredores de pequenos prédios! No início da década de setenta, já se desfazia o belo mundo em que padeiros italianos andavam de bicicleta pela rua Santo Antônio, oferecendo seus produtos em cestas encravadas na garupa.

Não ousávamos surrupiar os pães fabricados por aquele único padeiro móvel que restara, sério, 30 anos de idade, em parte calvo, magro e adepto do boné de lã até nos dias quentes. Enquanto o italiano pedalava para entregar seus produtos na Bela Vista resistente, nós brincávamos de pega-pega atrás dos carros negros de estalar, estacionados junto ao meio-fio. À porta de algumas poucas casas, antes que recebessem as farinhas do romano sem nome, senhoras lustrosas limpavam as mãos nas laterais das saias.

Meus pais gostavam de nos lembrar que não éramos livres. Que aquilo, o pobre casario, os pequenos prédios à véspera da ruína, o padeiro italiano, as bicicletas, o meio-fio, as mulheres gordas e depois as boates onde cantava Agostinho dos Santos, de quem ganháramos caixas de fósforo de emblema são-paulino antes que seu avião se espatifasse para os franceses, tudo isto não passava de algo a ser esquecido, a infância em momento errado. Não se poderia ser verdadeiramente moleque em uma rua do centro, subindo e descendo elevadores, entrando furtivamente nas salas de carpete roxo com cheiro de cigarro da casa de samba Telecoteco na Paróquia. Meus pais desconheciam o que ofertavam.

O mundo, para nós, tinha um fim. Era a Terra achatada de Bonadei. Arriscávamos a morte sobre a bicicleta, descendo a rua Marques Leão. Nossa vida também poderia ser perdida nos elevadores graciosos, que quebrávamos quase sempre ao experimentar seus botões. Nesta infância vertical, repleta de escadarias, jogávamos o lixo dos apartamentos por um túnel no corredor. A diversão era abrir a tampa do túnel, deslizar os sacos e ouvir o barulho das latas e garrafas que se espatifavam lá embaixo, no subsolo. Vitória cotidiana e quente.

Todos os prédios são horríveis, disse-me certa vez uma jovem professora de russo que até os anos 1980 desconhecia usos diversos para a palavra “glasnost”. Fico cheia de dúvidas quanto à verdade daquela assertiva. Mas, evidentemente, os prédios são horríveis: eles não nos pertencem. Não há a pedra de fundação de meu avô no Saint Antoine onde morei. Hoje, quando passo pelo edifício decaído, não sinto a saudade dos corredores, nem da vizinha que jogava fora os livros de Agatha Christie para que eu os percebesse um a um, nem mesmo do eco que provocávamos ao invadir a casa de máquinas contra a esperteza do zelador. O fantasma de Deus! Era aquele o meu lugar, mas já não o sinto.

Os prédios são mesmo uma existência artificial e imodesta, no plano dos arquitetos e dos filósofos. E, em São Paulo, sustentam-se sobre um princípio irracional. Se milhares de nós adentram uma garagem, milhares de nós sairão dela, às vezes no mesmo instante.

O arquiteto Rem Koolhaas defende os prédios. Ele diz que representaram um sonho em "Nova York Delirante". Antes do crack da bolsa, em 1929, os americanos tinham dinheiro e construíam torres. Depois do crack, acharam que precisavam prosseguir construindo, para não deixar o sonho acabar, e as torres ficaram ainda mais altas e teimosas. Os arquitetos se concursavam, como a não esmorecer. Houve belezas erguidas e caídas. Houve o magnífico prédio da Chrysler.

Volto à professora russa, tão certa do que dizia. Prédios são, no melhor ou pior sentido, assombrações. Representam o que já esquecemos, e vivem de ganhar novos sentidos que deixam de nos tocar. Na Nova York de Koolhaas, a idéia de um prédio de escritórios seria rechaçada como impensável, porque um edifício destinado somente ao trabalho pareceria uma monstruosidade, uma utilidade inútil. Um prédio deveria representar o circuito de vida e lazer. Seria preciso que sonhássemos dentro de seu espaço, que respirássemos por seus jardins internos. Mas muitas daquelas construções idealizadas para a vida hoje abrigam centros empresariais.

O fantasma de Deus contra o telhado de Bonadei. A São Paulo dos que podem fez sua escolha: continua cheia de prédios. Sua sustentação é uma idéia que o tempo moerá até o pó.