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Pra que sofrer, Werther?

por Alexandre Freitas — publicado 10/02/2010 15h45, última modificação 20/09/2010 15h47
Quando a bela e serelepe Sophie convidou Werther para um minueto, torci muito para ele aceitar. Claro que não aceitou. Ele amava Charlotte, a virtude em pessoa. Mas ela, coitada, já tinha prometido à sua mãe, no leito de morte, que se casaria com Albert. Trair uma promessa quase sacramental era tão difícil quanto dispensar um cara legal e apaixonado como Albert. Com tanta pressão não dava pra relaxar. Sua irmã Sophie, por outro lado, sem se dar conta de imediato da situação embaraçosa de Charlotte, estava super solta. Werther, vai minuetar com a menina!

Quando a bela e serelepe Sophie convidou Werther para um minueto, torci muito para ele aceitar. Claro que não aceitou. Ele amava Charlotte, a virtude em pessoa. Mas ela, coitada, já tinha prometido à sua mãe, no leito de morte, que se casaria com Albert. Trair uma promessa quase sacramental era tão difícil quanto dispensar um cara legal e apaixonado como Albert. Com tanta pressão não dava pra relaxar. Sua irmã Sophie, por outro lado, sem se dar conta de imediato da situação embaraçosa de Charlotte, estava super solta. Werther, vai minuetar com a menina!

A ópera de Massenet, claro, não segue ao pé da letra o romance alemão. Édouard Blau, Paul Millet e George Hartmann, autores do libreto, ampliaram o quanto puderam a participação de Charlotte. Adaptaram, inventaram um pouco, mas não dava para fugir do fim que reservara Goethe ao pobre rapaz. Seria como se Jesus, utilizando-se de seus poderes de filho do Homem, não se deixasse crucificar.

Werther é isso aí mesmo. Quando saía da Opéra Bastille, duas moças concordavam: “o tenor só podia ser alemão mesmo para conseguir embarcar nessa, um italiano nunca conseguiria”. A História da Ópera mostra que não é bem assim, mas, de qualquer maneira, para fruir integralmente o Werther de Massenet é preciso acreditar no amor à primeira vista, eterno e ideal. Pelo menos durante as quase três horas de ópera. Grande desafio.

O cenário da montagem, original do Opera House do Covent Garden, não trazia grandes surpresas. Tradicional, como é a atual direção da Opéra de Paris. Inovar, no caso de Werther, pode ser um pouco arriscado, já que é não é nada evidente transpor esse pathos emblemático bem localizado no tempo e no espaço. Não se correu riscos desta vez, ou melhor, os riscos foram os de não corrê-los. Nada de inovações. Vamos ficar aqui no quente que está bom.

E não é que ficou bom mesmo? O elenco estava muito convencido de cada gesto, cada passo, cada nota. A tão esperada ária “Pourquoi me réveiller” brilhou de tal maneira na voz de Jonas Kaufmann que, por alguns instantes, era fácil acreditar e compartilhar da legitimidade daquele sofrimento. Sophie Kock como Charlote, Anne-Catherine Gillet como Sophie, Ludovic Tézier como Albert e Alain Vernhes, o comendador, compunham os personagens principais dirigidos por Benoît Jacquot e pelo maestro Michel Plasson. Todos sofrendo com Werther.

E Werther é isso aí mesmo.

O canal Arte transmitiu ao vivo essa apresentação. Clique para assistir aos trechos:
(“Pourquoi me réveiller”)