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"Posso ser muito pessimista", diz Cate Blanchett

por The Observer — publicado 05/12/2013 05h59
A atriz de 44 anos fala sobre mudança climática, a perda do pai quando criança e por que nunca vai entender Woody Allen
Divulgação
Cate Blanchett

Imagem de Cate Blanchett contracenando com Bobby Cannavale em Blue Jasmine

Por Megan Conner

Sempre fui pálida. Tem a ver em parte com o fato de ter nascido na Austrália, onde o buraco na camada de ozônio é mais intenso, e em parte com minha mãe, que rapidamente pôs fim aos meus banhos de sol com óleo de bebê na adolescência. Eu ficava vermelha feito uma lagosta. Ela me disse para aceitar o que eu tinha.

Perdi meu pai muito jovem. A lembrança mais antiga que tenho é dele na cama quando eu tinha 18 meses – depois eu soube que ele estava se recuperando de seu primeiro infarto, aos 32 anos. Morreu aos 40 [de infarto], mas acho que realmente só avaliei as consequências para mim muito mais tarde, quando meu marido chegou aos 40. Eu estava eufórica na festa de aniversário dele, como se um peso tivesse sido removido. E pensei: "Agora ficam os fragmentos".

Precisamos continuar reforçando a linguagem em torno da mudança climática. Durante tanto tempo falamos sobre sacrifícios, e as pessoas ficam desacreditadas pelo que não abandonaram. [As celebridades] são criticadas por viajar de avião, mas a verdade é que alguém como Leo [DiCaprio] pega menos aviões do que é solicitado. Se quisermos que o assunto receba atenção, precisamos enfocar o fato de que há muita oportunidade.

Você é sempre mais crítico de seu próprio país. As pessoas falam sobre coisas da Grã-Bretanha e eu digo: "Ah, não é tão ruim", mas em casa é diferente. Está dentro de você.

Não sei se eu realmente quis um dia ser uma atriz. Sou uma pessoa ativa – a ideia de esperar sentada que o telefone tocasse não combinava muito comigo. Mas continuei fazendo isso, tentando não fazer e fazendo. Existe uma inquietação abençoada que você sente o tempo todo, mas talvez seja o que a faz seguir adiante.

Eu posso ser realmente pessimista. Você sabe isso quando ganha um Oscar e ao sair do palco seu primeiro pensamento é: "Meu Deus, atingi o cume".

Falei muito nos últimos seis anos. Meu marido e eu dirigimos a Sydney Theatre Company e foi mágico – meus filhos puderam ver muitos daqueles momentos fugazes entre a atuação e a vida real nos bastidores. Mas agora que parei com isso não vejo a hora de ficar um pouco mais tranquila. Estou muito consciente disso. No passado, algumas vezes ouvi a mim mesma e pensei: "Ah, cale a boca".

Você nunca consegue realmente conhecer Woody Allen. Ele não é o tipo de pessoa que você pode bater à sua porta e dizer: "Tenho uma ideia realmente interessante". Você simplesmente tem de esperar que ele tenha seu nome escrito em um pedacinho de papel em algum lugar e um dia ele lhe telefone e diga: "Tenho um roteiro e quero que você o leia".

Sinto falta de Brighton [Blanchett e seu marido moraram lá durante vários anos], a grandiosidade desbotada do litoral britânico. Tem uma poesia tão nostálgica...

Há muito poucas questões que ficam especificamente em uma região hoje. A pólio na Síria não afeta só a Síria. Não acho que qualquer questão possa ser isolada na política local hoje em dia, porque nós todos sabemos demais.

Ninguém jamais é o que pensa ser. E suponho que me interesso mais pela brecha entre a pessoa que projetamos socialmente e a que realmente somos.

Cate Blanchett é "embaixadora global" dos cosméticos SK-II

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