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Ciência e Ficção Científica

Pós-humano

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/10/2010 16h10, última modificação 25/10/2010 17h35
Livro traz coletânea de contos com facetas do universo Cyberpunk

Livro traz coletânea de contos com facetas do universo Cyberpunk

Em contraponto a Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, antologia de 2009, a Tarja Editorial publicou este ano Cyberpunk – Histórias de um Futuro Extraordinário (R$ 36, 184 págs.). Futuro em termos: assim como o steampunk joga com extrapolar a tecnologia do século XIX e explorar possibilidades fantasiadas por autores da época, o cyberpunk muitas vezes se baseia mais em reciclar convenções sobre o futuro imaginado por autores dos anos 1980 (ou de 1968, no caso do precursor O caçador de andróides de Philip K. Dick) do que se arriscar especulações novas e inesperadas.

Trata-se de um “futuro” tradicionalmente caracterizado por protagonistas solitários, alienados e marginais, onipresença de informação computadorizada (frequentemente ficando aquém da realidade de hoje), degradação ambiental (idem), corpos humanos voluntariamente “melhorados” por próteses cibernéticas (possibilidade ainda distante), inteligências artificiais (idem), enfraquecimento ou desaparecimento do Estado e poder político absoluto e universal das transnacionais (projeto ainda plausível nos EUA, mas revertida em outras partes do mundo, cada vez mais importantes).

Essas histórias foram localizadas poucas décadas à frente de sua época, às vezes quase no nosso presente: mais comumente da década de 2010 (no caso do livro de Dick que inspirou Blade Runner) à de 2030 (o Neuromancer de William Gibson). Muitas vezes, mostram o que parece um presente exagerado em alguns aspectos, combinado com ideias já banalizadas ou envelhecidas. Nem por isso o gênero deixa de ter potencial como entretenimento e jogo criativo. Alguns dos contos desta coletânea certamente merecem ser lidos.

O Fruto Ausente do Vosso Ventre, de Ronaldo Luiz Souza, é uma aventura razoavelmente interessante, com uso engenhoso de conceitos de informática e programação, mas com duas ressalvas. A primeira se refere às pouco criativas batalhas de videogame em que se envolve o agente cyborg protagonista, e que esvaziam o drama inicial por ver sua amante assassinada. A segunda é a apresentação demasiado vaga e desajeitada do pano de fundo político, que envolve o extermínio de uma “raça” não especificada por motivos mal definidos.
Protagonistas e Figurantes, de Luiz Brás, é um dos melhores. O autor frequentemente tenta combinar temas de ficção científica com experimentos formais mais ou menos ousados. Nem sempre é uma boa ideia: em Déjà-Vu publicado em Contos Imediatos, narra uma aventura militar banal na forma de fluxo de consciência com alteração da ordem temporal e o resultado soa simplesmente pretensioso: muita sofisticação e pouca substância. Mas neste caso, uma trama complexa e questionamentos de certa profundidade se combinam bem com a incomum narrativa em segunda pessoa, dirigida a diferentes “vocês” que são os personagens e ao mesmo tempo a mediocridade de diferentes formas de vida pós-moderna. Embute, além disso, outro truque: o narrador que parece ser apenas uma voz onisciente e externa à história mostra ser, no final, algo mais interessante.

É Por Isso Que Eu Odeio Política, de Gianpaolo Celli (um dos editores da coletânea), é um conto de aventura com uma agente secreta com a capacidade, proporcionada por implantes cibernéticos de mudar de aparência. Envolve ação em uma estação espacial, hackers, exércitos mercenários e um príncipe herdeiro da Espanha no ano de 2047. A concepção geral do conto é atraente e a narrativa movimentada, mas a batalha decisiva entre exércitos privados, que se passa no bairro do Embaré, em Santos (“Novo Brasil, São Paulo – Rio de Janeiro, distrito de Santos”), é decepcionante. Apesar de o terreno ser familiar ao autor e a muitos leitores, o conflito é descrito de maneira vaga e distante, como se fosse uma inconsequente simulação de sons e imagens em um videogame e não uma catástrofe mortal para milhares de civis inocentes, que deveria ter graves consequências políticas. O conto também escorrega em detalhes – por exemplo, trata como franceses os membros da famosa Legião Estrangeira, quando esta, por definição, sempre foi formada por mercenários estrangeiros.

Salvem os Marsupiais, de Débora Vieira Ramires, se embaraça em situações e diálogos inverossímeis enquanto caminha para o niilismo. Depois do sexo, um “eco-terrorista” reclama do preço cobrado por uma prostituta androide e em seguida tenta conquistá-la para sua causa. O diálogo é absurdo para a situação e ele a insulta repetidamente, mas ainda assim ela o segue e se junta ao grupo numa ação perigosa, marcada por reviravoltas e traição, para proteger uma reserva de marsupiais (gambás, presume-se) ameaçada pela construção de um centro de robótica. No fim das contas, a autora e a androide tropeçam nas palavras ao zombar do esforço fútil dos ambientalistas: “É muito mais seguro para esse planeta que vocês se esqueçam da sua própria espécie e se sacrifiquem em detrimento (sic) de outra. Salvem os marsupiais!”

Memórias de um Runner, de Ramon Giraldi, começa com uma situação anacrônica e inverossímil: em um cenário futurista, um mercenário cyborg é encarregado por um empresário a resgatar a filha de 16 anos que está sendo obrigada a se casar contra sua vontade e a dela por um rival que quer unir à força as fortunas e tecnologias das duas famílias. Já soaria absurdo num folhetim do século XIX ou numa novela da Globo, quanto mais num conto cyberpunk! Depois, melhora, à medida que o protagonista se envolve na intriga entre os dois poderosos e com uma misteriosa mercenária do lado adversário. Não fosse o começo incongruente, seria um conto passável, apesar do excesso de clichês. Linguagem, armas, ambientes e atitudes são em boa parte citações do RPG de mesa Cyberpunk 2020 da Talsorian Games, publicado originalmente em 1988 e editado no Brasil pela Devir.

O Trainee, de Ubiratan Peleteiro, está entre os melhores da coletânea. Combina temas de Blade Runner e Matrix com bastante habilidade, numa síntese original e cativante. Usa uma linguagem despretensiosa, mas perfeitamente adequada ao ambiente e à situação. Um engenheiro recém-admitido em uma prestigiada indústria de replicantes – que, neste caso, são anencéfalos orgânicos nos quais são implantados cérebros eletrônicos – descobre que nem a empresa, nem ele mesmo são o que parecem. Os diálogos soam autênticos e as reações, psicologicamente convincentes – um alívio depois de tantos personagens estereotipados e atitudes forçadas.

Uma Questão de Estilo, de Maria Helena Bandeira, ficou estranhamente deslocado nessa coletânea. Por mais que se queira esticar e diluir a noção de cyberpunk, este conto nada tem a ver com o subgênero. Na copa de 2070, as seleções europeias são formadas por androides – e as latinas e africanas, que continuam a empregar humanos (salvo goleiro e técnico), não ganham há décadas. Na final Brasil x Itália, o adversário programa o androide artilheiro com o “cérebro” do Pelé da Copa de 1970 (não se explica como) e o técnico robô da seleção canarinho recorre à catimba contra o Pelé reencarnado. Soa como o que a ficção científica do Brasil dos anos 60 tinha de mais ingenuamente humanista: o homem vence a máquina, o jeitinho brasileiro supera a disciplina e a lógica europeias. Uma quimera patrioteira e saudosista, obsoleta até no futebol. O mote dos anos 2000 é o hemisfério sul aprendendo a usar a ciência à sua maneira de maneira a não precisar mais iludir-se com compensações imaginárias de seu atraso econômico e tecnológico.

Instinto Materno, de Pedro Vieira é uma ótima paródia, que estraçalha os clichês precocemente envelhecidos do subgênero. Nesse conto, a onda de privatização e apropriação da cultura e dos bens públicos pelas transnacionais foi tão longe que incluiu as religiões: uma certa Microshiba comprou todo o panteão indiano e um terço dos orixás: cada vez que se consulta um deles por meio de um pai-de-santo é preciso pagar royalties. O jogo de búzios é da Nokitech e é preciso passar pelo tormento de uma central de atendimento: “digite 1, no caso de assunto sentimental; digite 2, caso seja assunto profissional...” Cristo não é exceção: é propriedade da Papista LLC, que o clonou literalmente “with lasers”. Conseguir uma galinha para o despacho é difícil demais: substituídas por minhocas transgênicas, só existem em zoológicos e o protagonista acha mais fácil roubar um dinossauro de um parque temático. Há cyborgs, como de praxe, mas em vez de pernas mecânicas e olhos biônicos preferem fígados à prova de excessos alcoólicos (aparentemente inevitáveis, já que as garrafas de bebidas têm inteligência artificial e uma voz macia para seduzir os consumidores) e pênis vibratórios de cabeças duplas e 29 centímetros. As pessoas esqueceram-se totalmente de como usar a memória e dependem da internet para as informações mais simples. É um conto que dá para recomendar tanto aos fãs do cyberpunk (se tiverem senso de humor) quanto aos que o detestam.

Longa vida: a República!, de Richard Diegues (outro editor da coletânea) é um derivado – spin-off, como preferem as editoras – de um romance razoavelmente bom desse autor, Cyber Brasiliana, já resenhado nesta coluna. Infelizmente, o ponto de partida é o momento menos inspirado desse romance – e o aprofundamento não o melhorou. Tudo gira em torno de como o Brasil dominou o mundo ao capturar bois no pasto de todo o mundo e monopolizar a criação de gado sob a liderança de um militar que move uma guerra para vencer uma eleição disputada com um empresário astuto. Como se constata também no romance, o autor tem ótimas ideias sobre tecnologia e programação, mas ao incursionar em economia e política, os temas mais centrais deste conto, soa ingênuo e inverossímil.