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Por emoções baratas

por Orlando Margarido — publicado 04/08/2011 12h59, última modificação 06/08/2011 09h47
Desastrado na arte da autopromoção, Lars von Trier evita aprofundar o tom sombrio de Melancolia
Por emoções baratas

Protagonista de escândalo ao fazer polêmicas declarações sobre Hitler, Lars von Trier evita aprofundar o tom sombrio do filme Melancolia

Em uma França paralisada por um caso de alcova envolvendo figura de alta expressão do meio financeiro, o autointitulado melhor cineasta do mundo solta sua diatribe. “Eu sou nazi, eu compreendo Hitler” foram palavras resumidas, rapidamente replicadas pela mídia internacional num contexto no qual era difícil relativizar suas- desastrosas intenções. Assim, substitui--se-- por algum tempo o dito escândalo sexual de um calejado Dominique Strauss-Kahn pela atitude desgovernada do eterno moleque inseguro Lars Von Trier. Mas, como em seu mais novo filme Melancolia, em cartaz a partir do dia 5, dois planetas colidiram irremediavelmente naquele início de tarde em Cannes. Um já consagrado pelo bom senso e pelas leis de civilidade, outro sempre à deriva, em busca da conflagração.

Que as certezas não são mais assim no imbróglio da camareira com o alto figurão, já se sabe, e sem surpresas. Surpreendente, no entanto, é considerar, à luz de uma distância reflexiva, o fundamento e a seriedade com que se tomaram as declarações de um realizador ciente há muito de seu dom de propagandear emoções baratas, seja na tela, com saldo razoável de exceções, seja fora dela, quando lhe convém.

Não é preciso recuar tanto no tempo para um exemplo. Há dois anos, instado por um exaltado jornalista inglês a explicar Anticristo no mesmo Festival de Cannes que agora o baniu, o dinamarquês lançou mão de seu direito de negar o pedido e coroou a atitude proclamando-se o melhor entre os diretores. Quem testemunhou esta e a mais recente passagem, reconheceu tratar-se de dois Triers. Aquele de 2009 que visivelmente tremia acuado pela acolhida controversa do filme e reagia de modo instintivo, e o atual, mais tranquilo porque recuperado, segundo ele mesmo, de um estado de depressão. Aspirava à simpatia, a uma conversa pontuada pela ironia e pela piada fácil. Seguro de si, tateou o jocoso para, enfim, descambar para o apelo infame.

Nada disso é, repita-se, inusitado ou desconhecido quando se trata de Trier. As justificativas acerca do seu cinema e de Melancolia durante o mesmo encontro em Cannes são tão ou mais reveladoras da personalidade do que a teia em que o cineasta se meteu para explicar as origens germânicas ou judaicas. Ao comentar o título, apontou a melancolia como uma qualidade que está em toda arte apreciada por ele, algo que a integra quando tem qualidade. Inspiração inicial, ela se revela para o diretor como sua natureza, um estado de espírito. No filme, a protagonista Justine (Kirsten Dunst, melhor atriz em Cannes) ainda está tomada pelo sentimento no dia do seu casamento e não vê chances de se libertar dele. A sensação é reforçada por um ponto vermelho no céu, o planeta batizado de Melancolia que se aproxima perigosamente da Terra. São as duas partes do filme, a festa em que desejos e intrigas familiares se acirram e a reunião final apenas com Justine, sua irmã (Charlotte Gainsbourg) e cunhado (Kiefer Sutherland) na expectativa do inevitável.

É um trabalho coerente na filmo-grafia- de Trier por remeter a temas que lhe são peculiares, a exemplo da decadência moral da família, e por extensão à sociedade, tratada no díptico Dogville (2003) e Manderlay (2005). Também pela assiduidade com que lida com personagens atormentados desde ao menos Ondas do Destino (1996), seu melhor filme porque talvez tributário de uma culpa originada num drama involuntário. Daí Melancolia portar um tom de revisão pouco original, não mais relevante do que adotar o sentido de apelo apocalíptico, presente também em Anticristo, ao que parece determinado pelo tal estado de espírito do diretor.

A impressão de algo farsesco, pretensioso na condução de um trauma também se impõe na mesma medida em que Trier lança mão de recursos sofisticados. O exemplo da abertura em ambos os filmes é tradução desse objetivo, no prólogo da criança que morre enquanto seus pais fazem sexo em Anticristo, ao som de Händel, e nos retratos vivos dos primeiros dez minutos em Melancolia, com o prelúdio do Tristão e Isolda, de Wagner.

Em mais um de seus chistes, Trier revela ter noção da dubiedade artística que seus filmes provocam ao comentar Melancolia como uma possível “porcaria” ou não. O público seria seu espelho, como tem sido desde o início da carreira, e parte do jogo na representação de uma falsa verdade ou vice-versa. Um desses blefes mais famosos veio em forma de mandamentos, ou dogmas, como batizou ele certo círculo de jovens realizadores- na Dinamarca do fim dos anos 90. Logo as lições de independência a um contexto cinematográfico comercial se mostraram estratagemas eficientes na captura de atenção, mas não convincentes e duradouras como renovação de linguagem. O próprio Trier foi o primeiro as infringir em projetos como- Os Idiotas. Conquistada- a mídia, riu por último.

É essa mesma premissa, ainda que com o agravo de tocar no capítulo talvez mais vil da história da humanidade, que orientou seu discurso deslocado em Cannes. Desta vez o riso lhe restou amarelo, mas é possível também ter uma ideia de como Trier mede a destreza de seu humor por outras passagens da mesma entrevista. Teria acenado mais uma vez a pronta credulidade de seus espectadores quando convocou suas protagonistas, Kirsten e Charlotte, para anunciar sob a face desconcertada delas que as dirigirá num filme pornô de quatro horas. Nesse roteiro que estaria escrevendo, o sexo seria muito, e sublinhou muito, desagradável. Dunst, filha de pai alemão, ainda não sabia da semana dura que a aguardava, como desabafou depois, quando foi brindada com outra pérola de Trier, dizendo que a atriz insistiu em realizar uma cena de sexo em Melancolia, e da maneira mais ousada possível. Mais uma vez, explicitar o sexo não reforça nada além de um desejo de controvérsia no cinema de Trier, que assim já o fez em Os Idiotas. Isto, para as grandes plateias e as vitrines dos festivais na Europa, tornou-se banal graças ao próprio diretor. Através da sua produtora Zentropa, ele produziu filmes pornográficos no final dos anos 90, com grande repercussão no continente.

Bem verdade que o histórico de seus filmes fazem tanto para reafirmar a figura excêntrica como sua trajetória pessoal, a quem ali queira buscar argumentos para formar o diagnóstico. Quando o diretor deu início à sua divagação em Cannes sobre as raízes, primeiro judaicas e depois alemãs, referia-se à descoberta, em 1989, no leito de morte da mãe, de ser filho não de um Trier de ascendência judaica, mas de um Hartmann de família germânica. Conta-se que ao adotar a designação “von” (de, em alemão) teria imputado não o sentido nobiliárquico que tem para a língua, mas feito uma homenagem aos cineastas Erich von Stroheim e a Joseph- von Sternberg. Os caprichos que ainda soariam ingênuos ganhariam mais tarde contornos de fobias conhecidas do diretor, como nunca andar de avião. Segundo os mais crédulos em personalidades desajustadas, evoluiriam para uma depressão.

Inclinado para a arte da autopromoção, Trier também assim se comporta como meio de proteção e defesa frente aos temas sombrios com os quais constrói seu cinema. Há uma diferença notável, no entanto, entre filmes que se alimentam da leitura pessoal do espectador e eximem o diretor de uma arguição, como em Anticristo e Melancolia, e outros que atendem plenamente ao desejo de arrebatamento do primeiro e as convicções do segundo, a exemplo de Dançando no Escuro.

Não por acaso, essa Palma de Ouro em 2000 parece constar como última referência de uma maturidade do rea-lizador.  Depois esta se reduziria, ainda que validada por um interessante experimento cênico baseado no teatro de Bertolt Brecht, em Dogville e Manderlay, filmes de uma trilogia que Trier pretende encerrar com Washington. No mais, produções pouco inspiradas como O Grande Chefe (2006) parecem rivalizar com um comportamento mais afinado com as molecagens do diretor ao vivo, e que se sustentam em experiências desafiadoras como o são alguns jogos infantis para crianças. Uma dessas de que se teve notícia no ano passado, durante o Festival de Berlim, deu conta de uma provocação lançada pelo dinamarquês a Martin Scorsese para que este refilmasse seu Taxi Driver. Ou ao menos partes do filme, já que a ideia de Trier é impor à refilmagem cinco obstruções, obrigando o colega a filmar mediante esses empecilhos. A proposta já foi testada em 2003 com o documentarista Jorgen Leth-, espécie- de mentor de Trier, a partir de seu filme de 1967, The Perfect Human. Que não se subestime o talento deste artista em se superar na oratória descuidada e renovar seu cinema a partir de mesmos princípios, ainda que com resultados desiguais, condição de que Melancolia é apenas a expressão do momento.