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Pop star… no Japão

por Ricardo Carvalho — publicado 02/09/2011 10h32, última modificação 05/09/2011 19h08
Uma oportuna gripe tornou o paulistano Ricardo Cruz ídolo da música de animês

O paulistano Ricardo Cruz, 29 anos, tornou-se um pop star japonês graças a um resfriado. Em 2004, um grupo de cantores de anime songs- – gênero das músicas de desenhos como Dragon Ball Z e Cavaleiros do Zodíaco – veio a São Paulo para uma participação especial na segunda edição do Anime Friends, hoje o maior evento de cultura pop oriental da América Latina. No único ensaio antes da apresentação, que contou com a presença do maior ícone de anime songs- no Japão, Hironobu Kageyama, uma das vocalistas estava gripada e preferiu poupar-se para o show. Cruz, fluente em japonês, conhecia as letras; assumiu o microfone e surpreendeu todos. No fim, Kageyama quis saber um pouco mais sobre o rapaz, descendente de italianos e portugueses, mas fanático pela cultura japonesa.

Kageyama convidou-o a gravar uma fita demo com a música tema dos Abarangers, uma espécie de precursor dos bem mais famosos no Brasil Power Rangers. Ao receber a fita, o músico japonês de 50 anos a inscreveu num concurso para eleger o novo integrante do Jam Project (Japanese Animationsong Makers), o mais famoso grupo de anime songs do mundo, criado em 2000 e do qual Kageyama é líder. “Ele (Kageyama) ia me avisando que eu estava entre os dez finalistas, depois entre os cinco e, um dia, me ligou para dizer que eu tinha vencido”, diz Cruz. No ano seguinte, o novo integrante viajou para o Japão, conheceu os outros cinco músicos e gravou diversas trilhas para o projeto. Desde então, vai ao menos uma vez por ano ao país participar de turnês e da produção de discos. Até agora, ele compôs duas músicas para o grupo, sendo uma em português.

A porta de entrada de Cruz para a indústria fonográfica de anime songs pode ter sido um conveniente resfriado. Entretanto, sua bagagem cultural sobre o universo nipônico é extensa e de longa data. No início dos anos 1990, a extinta TV Manchete trouxe ao Brasil uma leva renovada de programas de super-heróis japoneses. Com 10 anos na época, Cruz passava as manhãs assistindo a títulos como Changeman, Jaspion e Jiban. “Eu me deslumbrava com os ideogramas japoneses que apareciam nas aberturas e os copiava todos nos cadernos da escola”, revela.

Com o passar dos anos e a diversificação dos programas japoneses exibidos no Brasil, o interesse aumentou. Durante a adolescência, Cruz passava os fins de semana numa biblioteca de mangás – os quadrinhos orientais – na Vila Mariana e em videolocadoras da Liberdade especializadas em programação japonesa. “Eu tinha cadastro em praticamente todas. Chegava a alugar até talk shows e programas de auditório para tentar entender a língua.” Foi também na Liberdade que ele frequentou as exibições de animês (desenhos japoneses) na gibiteca Henfil, que ocorriam todo terceiro domingo do mês. “Eu quase repeti o segundo ano do colegial por matar aula para ir à Liberdade.”

Aos 17 anos, incentivado pelo pai, Cruz conseguiu uma vaga para um intercâmbio pelo Rotary Club no estado japonês de Tochigi, a 100 quilômetros de Tóquio. No equivalente ao terceiro ano do ensino médio brasileiro, a principal atividade de lazer dos alunos era passar as tardes em karaokês. “Cantávamos principalmente anime songs e algumas pessoas vinham me dizer que gostavam da minha voz, mas eu nunca pensei que isso seria mais do que um hobby.” Ainda no Japão, ele foi a três apresentações do show Superhero Spirit, do qual Hironobu Kageyama participou. O músico é nacionalmente reconhecido por ter gravado as aberturas originais de séries como Dragon Ball Z, Changeman e Cavaleiros do Zodíaco.

De volta ao Brasil, em 2000, Cruz encontrou na explosão de produtos ligados à cultura japonesa um trabalho. Na Conrad, editou as revistas Pokémon Club e traduziu mangás lançados no País. Na mesma época, participou do AnimeCon, o primeiro grande evento de cultura pop nipônica no Brasil. Nele, ainda de maneira amadora, realizou pequenos shows. Em 2003, mediante uma parceria com o empresário Takashi Tikasawa, ajudou a organizar o primeiro Anime Friends, que possibilitou a vinda de Kageyama, além de outras figurinhas carimbadas no Japão, como Akira Kushida, cantor de Jiban e Jiraiya, e o ator Hiroshi Watari. “Foi a primeira vez que os fãs brasileiros tiveram contato com cantores japoneses. Em dois dias de evento, vieram mais de 18 mil pessoas.”

Por morar no Brasil, a presença de Cruz no Jam Project é encarada como uma participação especial. Ele se orgulha por representar uma “ponte entre as duas culturas”. Ao escolher um brasileiro como novo integrante, o projeto reconheceu a forte presença dos animes no Brasil, país com a maior colônia de imigrantes japoneses do mundo. “Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil é o país que mais tem tradição e que mais consome cultura pop japonesa.”

O maior desafio da participação no Jam Project foram as apresentações realizadas na Arena Budokan, em 2009 e 2010. Localizada em Tóquio e com capacidade para 14 mil espectadores, a arena é famosa por ter recebido shows dos Beatles e Bob Dylan. “Durante o show, com a preocupação de não poder errar, de ter de decorar as letras e lembrar as marcações no palco, eu não consegui ter noção da proporção daquilo tudo.”

Outro ponto que o surpreendeu é a relação com os fãs. Ao contrário do completo anonimato no Brasil, Cruz e os demais integrantes do Jam são recebidos com entusiasmo em estações de trem durante as turnês. “Os japoneses têm uma cultura de cozinhar para as pessoas que admiram. Sempre que a gente chega em uma cidade nova, vem um fã me entregar bolos, biscoitos etc.”

Ainda neste ano, Cruz deve voltar ao Japão ao menos outras duas vezes. Em dezembro, junta-se ao padrinho musical Kageyama e aos demais integrantes do Jam para mais uma temporada de gravações. Um pouco antes, em setembro, planeja divulgar o trabalho desenvolvido pela produtora Scifi-FX, que atualmente produz um filme de ficção científica brasileiro em parceria com estúdios norte-americanos e japoneses. “O Jam pode fazer uma música para a trilha sonora, é claro.”