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Pintura e resistência

por Rosane Pavam publicado 12/08/2011 11h06, última modificação 14/08/2011 11h11
Mino Carta leva à galeria Ricardo Camargo, na capital paulista, 25 óleos inéditos produzidos entre os anos de 1995 e 1996
Pintura e resistência

Mino Carta leva à galeria Ricardo Camargo, na capital paulista, 25 óleos inéditos produzidos entre os anos de 1995 e 1996. Por Rosane Pavam

Mino Carta pinta o que existe. O amor, a perplexidade, o erotismo. Os cabelos luminosos das mulheres, as máscaras que escondem os homens. E também as berinjelas. Pintar o que existe, contudo, não tem sido a mais fácil das tarefas, para ele ou qualquer outro pintor. A razão desta dificuldade pode ter muitas explicações. O certo é que algo no caminho das artes fez com que o interesse pelas coisas reais migrasse para o conceito por trás delas. Em lugar da tela, que anteriormente funcionara como uma janela para a vida, optou-se por apreciar- uma espécie de moldura, seu limite. E Mino, jornalista e escritor do Brasil, ficou associado ao gosto extremo por aquilo que é antigo. O gosto por pintar o real, que também- pode significar o difícil.

Vinte e cinco de seus óleos inéditos estarão expostos entre 15 de agosto e 3 de setembro, sob organização de Valdemar Szaniecki, há 45 anos marchand em São Paulo, na ampla Ricardo Camargo, galeria de inspiração nova-iorquina da cidade. É a primeira vez que Mino mostra obras ao público desde uma exibição bem-sucedida- de 20 outras telas em Antuérpia, em 1995. Agora, em dez dos quadros de 1,30 x 1,60 m expostos, o artista relatará encontros amorosos. Em duas outras telas, figuras. E as 13 naturezas-mortas de sua autoria, em uma incursão até então desconhecida do artista pelo gênero, não trarão bules ou faisões bem dispostos sobre a mesa de madeira. Haverá, em lugar disso, a berinjela que ele chamará de imponente, uma intrigante couve-flor “-cerebral” ou a fruta mordida sobre uma publicação ilustrada. Diante dessas pinturas, o espectador poderá exercitar a contemplação, ato em -desuso desde que “interagir” virou o verbo-chave das bienais.

Incentivador e responsável pela decisão de Mino de mostrar essas novas obras ao público, Szaniecki, dono de A Galeria, que também completa 45 anos no ano que vem, entende o amigo de três décadas como um bom e raro “pintor de cavalete”. Mas se arrisca a detectar, nesta sua fase artística, uma “fragrância de surrealismo”, algo que Mino amigavelmente contesta. Fundador e diretor de redação de CartaCapital, o artista talvez se veja, antes e mais, como um cavaleiro contrário aos rumos da arte contemporânea, que detecta submetida às regras do mercado.

Ele conta um episódio que dimensiona seu desentendimento sobre tais rumos. Em Roma, recentemente, assistiu a uma retrospectiva do contemporâneo italiano Michelangelo Pistoletto, representante da corrente arte povera. A primeira parte da mostra cobria 20 anos de produção nos quais o artista trazia para as telas os próprios observadores. Era um procedimento direto, no qual pintava o espectador do quadro sobre um espelho. Logo, um amigo de Pistoletto tirava fotos do público para que o artista as reproduzisse sobre o aço polido, superfície a evocar o espaço das imagens refletidas. O resultado, diz Mino, era muito interessante, mágico. Mas qual não foi sua surpresa ao visitar a sala seguinte da exposição. Ali, um círculo- de roupa usada se fechava em torno de um ferro de passar. “Eu não sei. A figura, eu respeito, um homem engajado politicamente, mas me pergunto o que vai pela cabeça de um artista ao propor tal coisa”, ele diz. “Qual é a graça? Um desafio? Marcel Duchamp já fez isso 200 anos atrás.”

Para o pintor, o encontro com a obra de Pistoletto constituiu mais um emblema do estado atual da arte, partida ao meio entre a rejeição e a submissão ao marketing. E Mino desde há muito decidiu o -caminho a seguir. Ele exerce a pintura, tanto quanto a escrita, com o espírito do resistente. Pinta desde os 14 anos, de início com aquarela e guache, por orientação do pai, Giannino, jornalista e professor de história da arte. “Eu queria frequentar os dois ambientes, algo nada incomum na Itália”, diz. Nascido em Gênova em 1934, vindo ao Brasil com a família aos 13 anos incompletos, ele diz ter virado jornalista por conta do “terno azul-marinho”, para ganhar a vida. E sua arte foi exercida de forma concomitante.

No início da trajetória adulta, pintou sempre a óleo. Em 1954, o crítico Sergio Milliet o convidou a participar das celebrações do IV Centenário de São Paulo na exposição Paisagem do Brasil, juntamente com 19 artistas, entre eles Pancetti, Portinari e Tarsila do Amaral. Milliet mostrou duas das telas de Mino. Sua primeira individual aconteceu em 1957, organizada em Milão pelo crítico e futuro presidente da Bienal Internacional de Veneza, Luigi Carluccio. Na década de 1960, a ditadura brasileira fez arrefecer sua expressão sobre a tela. Ele voltou à pintura em 1975, com uma exposição no Museu de Arte de São Paulo a convite do diretor Pietro Maria Bardi, que exibiu seus 30 acrílicos sobre a Lapa de Baixo, bairro paulistano, na pinacoteca da instituição, colocando Matisses e Cézannes para trás. A exposição contou com uma circunstância especialíssima. O autor do design do catálogo, -George B. J. Duque Estrada, hoje diretor de arte- de CartaCapital, acabou preso -pela ditadura no dia do vernissage, em outubro daquele ano, antes que se desse a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog.

Ao se dedicar à pintura, Mino acolheu conselhos e recebeu incentivos. Bardi, por exemplo, sugeriu-lhe pintar figuras quando nada mais ocorria ao artista -exceto se estender por paisagens. E o amigo Giuseppe- Baccaro indicou o uso do acrílico, menos tóxico que o óleo, uma mudança que lhe permitiria pintar as telas em casa. “Eu me dei bem ao seguir esse conselho. Muita gente acha que meus acrílicos, vistos a distância, são óleos. Quem conhece pintura, claro, sabe que a matéria é diferente. O óleo ressalta, ele aparece sobre a tela. O acrílico se estende, se dilui.” A partir da exposição no Masp de 1975, Baccaro sugeriu o nome de Antonio Maluf, com quem o artista fez diversas exposições, por 11 anos, em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, até a aposentadoria do marchand, em 1990.

Szaniecki entrou em cena naquele ano, admirador que era das paisagens do artista. Em sua A Galeria, organizou Memórias Herdadas. Para esta exposição, contendo mais de duas dezenas de telas em torno de figuras do passado, Bardi escreveu a apresentação do catálogo, na qual diz: “Julgar uma figura, estabelecendo como o pintor a ajeita no espaço, a veste ou desveste, dando-lhe vida, equilibrando-a, em certos momentos dando-lhe movimento, colocando-a, enfim, no hemisfério das artes, significa uma recordação de Mino Carta quando pinta”.

Um colecionador alemão comprou quatro telas de Memórias Herdadas e propôs uma exposição em Antuérpia, rea-lizada em 1995 com 20 obras. Dois anos antes, Londres já recebera Boudoirs and Gardens, também sob os auspícios de Szaniecki. O artista fez um total de três exposições no Masp a partir de 1975, uma delas, em 1994, com cem obras.

Mino pintou as telas da atual mostra com o objetivo de expor em Düsseldorf. Mas uma circunstância pessoal o impediu de seguir em frente. As obras agora na Ricardo Camargo foram produzidas entre novembro de 1995 e julho de 1996. “Mino Carta, eu garanto, nunca vai pintar um quadro de encomenda”, afirma o amigo Szaniecki. Não seria esta, de fato, a atitude de quem enxerga no horizonte da idolatria os nomes dos artistas Masaccio, Caravaggio, Rembrandt, Goya, Turner, Morandi, Matisse, Cézanne, Francis Bacon e Lucian Freud.