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Pílula do absurdo

por Willian Vieira — publicado 10/05/2011 19h12, última modificação 10/05/2011 19h25
Inspirada no conto de Julio Cortázar, "Carta a uma Senhorita em Paris", a peça "Pronto para mudar", em cartaz no Centro Cultural São Paulo, traz à tona uma experiência concreta de realismo fantástico. Até 29 de maio

PRONTO PARA MUDAR
Janaína Leite e Juliana Sanches
Centro Cultural São Paulo
Até 29 de maio

Uma tradutora se muda para o apartamento vago do amigo J. para trabalhar em paz. Ela então lhe escreve uma carta, na qual confessa que ali tem vomitado bem mais coelhinhos do que de costume e que os animais estão destruindo a casa. Não é, porém, o roçar macio dos coelhos na garganta, que sobem como sal de frutas, o que a abala. Os costumes são “a cota de ritmo que nos ajuda a viver”. E ela vive bem com a rotina que controla, asfixiada somente pela esmagadora ordem do apartamento, “reiteração visível” da alma de J. Mas os coelhos, diz a voz que segue a carta na máquina de escrever, fazem-na trocar o dia pela noite, invertem sua razão, bagunçam sua existência. E o inevitável acontece.

Inspirada no conto de Julio Cortázar Carta a uma Senhorita em Paris, a peça surgiu em um laboratório entre as atrizes e as diretoras Janaína Leite e Juliana Sanches, do Grupo XIX de Teatro. “Era uma pílula de absurdo”, explica Juliana: uma cena curta estendida e adaptada ao sabor da reação do público. À inspiração do conto foi adicionado o desdobramento psicológico da tradutora, materializado por outra atriz, seu alter ego profissional. Duas faces da mesma agonia, elas dividem o palco com uma corretora imobiliária que interage com a plateia ao tentar vender o imóvel a despeito da tragédia. E ela começa a fazê-lo ainda na fila do teatro, passando-se por corretora de verdade.

Assim, os coelhos que brotam da garganta da protagonista sobem ao palco, pouco a pouco, na pele das pessoas abordadas por ela. Interativa e colaborativa, com cenários e luz simples, Pronto para Mudar faz um mergulho interessante na obra de Cortázar. E traz à tona uma experiência concreta de realismo fantástico.